Olinda e o descaso com o patrimônio

Imaginem um turista chegar em áreas tombadas no Brasil – como Ouro Preto (MG)  e Pirenópolis (GO) – e se deparar com cenas como as recentemente observadas no Largo do Bonsucesso, um dos pontos de visitação turística de Olinda, onde  o que se via ao lado dos monumentos históricos era muito lixo acumulado, além de móveis velhos descartados, como sofás e poltronas. Estive perambulando pela cidade, dia desses, em uma das incursões com o Grupo Caminhadas Domingueiras.

O que vi foi um verdadeiro descaso da população e da gestão pública com uma área que – como todo o sítio histórico – deveria estar limpa, com jardins e com as fachadas de casarios, igrejas, bicas e outros equipamentos totalmente preservados.  No Largo do Bonsucesso, além do gracioso casario, há dois monumentos importantes: a Igreja Rosário dos Pretos e a Bica do Rosário (ao lado).

A Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos fica no Alto do Rosário (localizado em frente à sede do Homem da Meia Noite). Com construção datada do século 17 e fachada com três arcadas, ela tem grande importância histórica: foi a primeira do Brasil pertencente a uma irmandade formada por pessoas negras. Já a Bica do Rosário é a mais antiga de Olinda, tendo sido implantada ainda no século 16, mais precisamente em 1537 (em 2018, ela e mais as bicas dos Quatro Cantos e São Pedro, passaram por restauração sob responsabilidade do Iphan). Ali fica, também, a sede do Clube Carnavalesco de Alegoria e Crítica  O Homem da Meia Noite, comandando pelo boneco gigante mais famoso do Brasil, e cuja “casa” ponto de interesse turístico (foto abaixo).

A sede da agremiação carnavalesca é constantemente procurada por visitantes, embora o imóvel onde funcione não tenha o valor arquitetônico do conjunto residencial vizinho, cuja maioria conserva as características dos séculos passados. O clube carnavalesco é um dos mais antigos em atividade do Brasil, tendo sido fundado em 1931.

E não é para menos. Porque o Homem da Meia Noite, cercado sempre de magia, é tradicionalmente a responsável pela abertura oficial do carnaval de Olinda, um dos mais famosos e espontâneos do Brasil. Como se isso tudo não bastasse, a parte alta de Olinda é um sítio reconhecido pela Unesco  como Patrimônio Histórico, Cultural e Natural da Humanidade. Ou seja, jamais nenhuma área histórica da cidade poderia estar vivenciado cenas como as observadas nessas fotos, com móveis jogados até mesmo ao lado da Bica do Rosário.  O gramado também não está bem cuidado, e a bica, cercada de ervas daninhas. Será que no Pelourinho, em Salvador, veríamos cenas como estas? Sinceramente, nem um papel amassado vi jogado nas ladeiras que formam  um dos mais famosos cartões psotais da Bahia. Enquanto isso, aqui em Pernambuco….

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Texto e foto: Letícia Lins / #OxeRecife

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