Bora plantar? Bora aguar?

A Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Recife (Smas) informa que “vem investindo na ampliação de áreas verdes na cidade”. Bravo! Tem mais é que investir mesmo, porque a capital precisa cada vez mais de árvores para neutralizar os efeitos do aquecimento global que afeta continentes,  países, estados, municípios, distritos. Enfim, a todos nós. No plano local, só elas para reduzir as ilhas de calor. De acordo com a Smas, em 2019 foram plantadas 11.051 mudas na cidade, 10 mil das quais na  chamada Maratona Verde. Já o Bora Plantar? atendeu a mais de 200 solicitações de moradores do Recife pedindo árvores para suas calçadas, praças, jardins. As solicitações resultaram em 1.051 árvores a mais nas ruas do Recife. É claro que o esforço para tornar a cidade mais verde é sempre muito louvável. O problema é que o índice de sobrevivência das árvores parece não estar correspondendo. É verdade que em áreas públicas, como os  parques, os gestores têm a obrigação de regar o gramado, as mudas, as plantas. Ou seja, bora plantar? Bora aguar também. Porque sem a devida rega nenhuma planta sobrevive. Há mudas tão secas nas calçadas que viraram até motivo de piada, como se observa na foto ao lado.

Parque que é parque tem que ter árvores, flores, plantas decorativas, sombra, conforto térmico. Hoje na caminhada matinal, observei dois exemplos de locais com mudas que foram plantadas em vão, ao longo do ano passado. No primeiro caso, há negligência da iniciativa privada, que poderia colaborar com o poder público e molhar as mudas recém plantadas nas calçadas dos seus estabelecimentos. Não é o que acontece, por exemplo, na calçada do Bompreço, em Casa Amarela, onde a árvore, ops… a muda secou completamente. Creio que nem tem mais vida. Algum gaiato até colocou uma placa na grade de proteção da planta: “Preciso de água”.

A árvore é uma das mudas distribuídas em 2019 pela Prefeitura entre as muitas implantadas na Zona Norte. A vítima de falta de cuidado na foto vertical fica na calçada da Rua Dona Ana Xavier, que pertence ao Bompreço. Custava nada a milionária empresa regar esta e as outras mudas que ganhou em frente ao seu prédio?

Segundo: Caminhando pelo Parque da Macaxeira, vi um exemplo do estrago proveniente do descaso do poder municipal com a coisa pública. O plantio de mudas tem custo: berçário, cultivo, transporte. Mas se elas não brotam, o dinheiro foi jogado fora. Saiu pelo ralo. No Parque da Macaxeira, hoje contei nada menos de 100 mudas que deveriam estar crescendo, mas que viraram gravetos. Eles estão em toda parte do parque, que já não é um  primor de verde. Embora seja o maior do Recife e – um dos mais bonitos –  o  terreno que abrigou o antigo parque fabril da Macaxeira se ressente da falta de sombras, estas limitadas a quatro ou cinco árvores frondosas. O resto está em fase de crescimento, ou morreu de inanição, por falta de água. O gramado, esse então já secou com o verão, deixando o parque parecendo um areal.  Como, aliás, também está o vizinho Parque Apipucos Maximiano Campos, cuja grama até queimada com fogo foi. Dá para entender?

No Recife, aliás, não se observa nas ruas o carro pipa que passava à noite aguando as plantas. Perdi as contas das vezes, em que o vi em ação, em gestões anteriores, molhando os canteiros da Avenida Agamenon Magalhães, por exemplo. Para dizer a verdade, nos últimos cinco anos, a única vez que vi ação desse tipo foi no Cemitério de Santo Amaro, perto do Dia de Finados. E não sou apenas  eu, que sente a falta desse tipo de iniciativa.  Veja o que diz o leitor Alexandre Malta, em mensagem pelas redes sociais do #OxeRecife. “O carro pipa que fazia a rega, deixou de circular. Soube que por falta de recursos”. Ele fez o comentário, em resposta a uma postagem sobre o sumiço dos gramados das praças do Recife, inclusive das tombadas e históricas. “Aqui no Segundo Jardim de Boa Viagem, a prefeitura reformou a praça no projeto de requalificação da orla, mas a grama está morrendo, sem cuidado nenhum”, diz Marcelo Arruda, morador do bairro da Zona Sul. “Eu me incomodo com a situação das praças, parques e da vegetação em geral da cidade”, acrescenta Herivelton Silva. E conclui:

“A cidade está com parques, praças e canteiros do cais com o gramado e a vegetação secos. Sem ver uma gota d´água. Parece que não existem jardineiros na Prefeitura”.

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Texto e fotos: Letícia Lins / #OxeRecife

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