Decadência na Praça da Independência

Sinceramente. Dá muita tristeza ver, hoje, a outrora vicejante e histórica Praça da Independência, palco de tantos movimentos libertários e área tão importante para a população do Recife até o século passado. Tenho ido lá sozinha ou em grupos, como o Caminhadas Domingueiras e o Caminhadas Culturais. Mas sempre se repete o mesmo retrato de decadência. E, pior, nem Carlos Pena Filho (1929 – 1960), que tanto cantou o Recife em versos, está sendo poupado. Da última vez que estive ali, a estátua do chamado “poeta do azul” mais parecia um espantalho, como se observa na foto acima.

Pena, como vocês devem saber, é o autor daqueles versos célebres que hoje são declamados com nostalgia, por conta de um Recife que não volta mais. “Por isso no Bar Savoy, / o refrão tem sido assim: / São trinta copos de chope, / são trinta homens sentados,/ trezentos desejos presos, / trinta mil sonhos frustrados”.  O Savoy ficava na Avenida Guararapes, bem pertinho dali. A Praça da Independência, também conhecida como Pracinha do Diário, precisa de cuidado. Está ocupada por quiosques sem nenhuma preocupação estética, seus jardins vivem cheios de lixo e o gramado sumiu.  É frequentada por moradores de rua e palco de baixo meretrício. À noite, a segurança deixa muito a desejar.

“Durante a ocupação flamenga, era conhecida como Terreiro dos Coqueiros, mas no século seguinte, ficou conhecida como a Praça do Polé, devido ao temido poste ali situado que poderia, a qualquer momento, fazer cumprir o suplício da polé”, lembra Jacques Ribemboim, no livro Dois Bairros Irmãos, quando se refere “ao macabro ritual de pendurar um condenado pelos braços e suspendê-lo com pesos amarrados aos pés”.

O urbanista e arquiteto Francisco Cunha lembra que o Terreiro dos Coqueiros a que se refere Ribemboim,  “já constava nos mapas da Cidade Maurícia (mais ou menos 1640), onde provavelmente ficava um mercado”. Ele conta que como ela estava no extremo do eixo da ponte, sempre foi um ponto importante no traçado urbano do atual bairro de Santo Antônio. “E, depois, da própria cidade do Recife”, acrescenta. “Trezentos anos após, por volta de 1940, passou a integrar o eixo da Avenida Guararapes,  também como ponto central da chegada dos subúrbios”. Ele ressalta que a Praça virou, na prática, “o verdadeiro centro da cidade, quando foi aberta a Dantas Barreto, pois era ponto de intersecção dos dois eixos principais: Leste/ Oeste (Ponte, Primeiro de Março, Guararapes, Conde da Boa Vista) e Norte/ Sul (Dantas Barreto)”. Hoje, como  disse acima, a Praça é um amontoado de quiosques. As fachadas dos prédios antigos  não são valorizadas pelos comerciantes, e a poluição visual é grande. Aliás, imensa.

Até mesmo o imponente prédio onde por muitos anos funcionou a redação do Diário de Pernambuco está caindo aos pedaços. O DP, jornal histórico, é o mais antigo em circulação da América Latina. Só isso já era suficiente para instalar ali um museu sobre a imprensa pernambucana, até porque o bairro de Santo Antônio – juntamente com o de São José  – eram os preferidos para sediar jornais ou tipografias no século 19 , como se pode observar em listagem que consta no livro Dois Bairros Irmãos, de Jacques Ribemboim. Ou seja, pela sua importância histórica e urbana, a Praça da Independência jamais poderia estar tão detonada (como aliás, a grande maioria das praças do Recife). Vamos lutar por ela? Afinal, a qualidade de vida de uma cidade  também se avalia pelo estado de suas praças e parques.

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Texto e foto:  Letícia Lins / #OxeRecife

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