Imperatriz tem 26 lojas fechadas

Está de fazer pena, a Rua Imperatriz que, no passado, dividia com a Rua Nova a centralização do comércio mais sofisticado do Recife. No caso da primeira, já teve tempo em que ostentou a melhor livraria , a lanchonete mais badalada, uma das padarias mais famosas da cidade, a ótica mais conhecida de Pernambuco. Como se não bastasse o atentado estético imposto por comerciantes (com a benevolência dos órgãos públicos) ao seu lindo casario, é cada vez maior o número de lojas fechadas: 26, a maior parte com placas de “aluga-se”, sem que apareçam candidatos aos pontos abandonados.

O número de estabelecimentos comerciais fechados que computei no último sábado é 44 por cento maior do que o registrado pelo #OxeRecife em setembro de 2018. E, tenham certeza, o problema não resulta só da crise econômica e retração do consumo não. No Recife, as causas têm a ver, também, com a crescente degradação do centro, formado por bairros como Boa Vista, Santo Antônio, São José.

O que se vê hoje é realmente muita desolação (foto ao  lado). Há quem culpe o surgimento dos shopping centers pela decadência do comércio de vias tão importantes no passado do Recife. Será? Não é a deterioração do centro da cidade – camelôs em excesso, calçadas intransitáveis, falta de segurança – que vem afugentando os clientes? Estive andando por ali no último dia 26 . Fui participar de ação organizada pelo Grupo Amantes do Recife, que fez um abraço simbólico na Ponte da Boa Vista, que vem sofrendo ação de pilhagem praticada por vândalos. Decidi dar uma volta na Imperatriz do mesmo jeito que fizera em 2018. Tomei um susto com seu passeio público deserto, com tantas lojas fechadas. O número é bem maior do que o registrado nas últimas contagens feitas curiosamente por membros do grupo. Um havia somado doze no ano passado, o outro computara 20  há um mês. E ontem, infelizmente, eram 26, segundo contei, somando os dois lados.

Sei não, mas acho que a culpa não é só de shopping center não. A culpa é do poder público e também da iniciativa privada. Ao longo dos anos, ambos contribuíram para tornar a Rua Imperatriz uma via árida, com atentados à estética, sem arborização nenhuma (só possui uma árvore em todo o percurso). Se você for observar, o belíssimo e antigo casario das famílias abastadas de classe média de outrora (as habitações eram nos andares superiores com lojas nos térreos), mais parece um grande cortiço abandonado. As fachadas foram violentadas com “reformas” que não teriam licenciamento em nenhum órgão público sério, preocupado com a beleza do Recife. Será que uma cidade como Paris permitiria que um belo edifício como esse à direita fizesse tal “arrumadinho”  no andar térreo? Veja como a estética do edifício foi violentada por uma reforma indigna desse nome. Consentida, como? E esse não é um caso único, é a regra. A via transformada em espaço para pedestres não possui bancos, arborização, nada.  Mas nada mesmo que a valorize, tornando-a atraente aprazível.

Tenho passado sempre pelo local, sozinha, ou em grupos com passeios do Olha! Recife, Caminhadas Domingueiras, Caminhadas Culturais, Preservar Pernambuco.  E sempre fico muito triste com a degradação, que só faz aumentar. Já há estudos e planos, para melhorar a vida do Centro.

Mas, a continuar essa liberalidade na concessão de licenciamentos, sem nenhuma preocupação com a preservação dos nossos conjuntos arquitetônicos, dificilmente a Imperatriz  vai recuperar seu passado de glória. Xô, coisa feia!

Dos tempos áureos, pelo que se observa, só vai sobrar mesmo o nome. O problema se estende a outras ruas, dos bairros de São José e Santo Antônio. E ainda tem gente nos círculos oficiais que acha que financiar bandinha ou conjuntos musicais poderia arejar comércio do centro, em ruas como a Imperatriz. Vai ser pior. O povo para ao ouvir a música, e esquece de entrar nas lojas. Isso, sem falar no desconforto provocado pela poluição sonora, que é grande no Centro, já que muitos comerciantes exageram no som para atrair clientes anunciando suas ofertas.

Leia também:
Vamos salvar o centro do Recife?
Imperatriz tem 18 lojas fechadas
Resgate histórico no Beco do Camarão
Ruas da Boa Vista sem camelôs
Praça Dezessete está abandonada
Pedras portuguesas, onde estão?
Rua da Conceição e relíquias religiosas 

Santo Antônio e São José ganham livro
E o turista, como é que fica?
Praça Dom Vital parece ninho de rato
Nova paisagem em São José

Turista, placa apagada e boi voador 
Confusas, placas são recuperadas
Sinalização irracional e poluição visual
Lembram dele? O caso único  do edifício que teve duas fachadas simultâneas
Recife Antigo merece respeito 

Os primeiros das Américas
Olha! Recife explora a arquitetura da cidade 
Art déco: Miami ou Recife
Aluga-se um belo prédio na Bom Jesus
O charme dos prédios da Bom Jesus
A presença estrangeira em nossa história
Passeio por 482 anos de história
Resgate histórico no Beco do Camarão

Texto e fotos: Letícia Lins / #OxeRecife

Compartilhe

3 comentários

  1. Realmente a decadência da rua da Imperatriz, rua Nova , têm parcelas de Culpa do Poder Público. Prefeitura do RECIFE e Governo de Pernambuco, Não Estão Nem Ai. Figuras Burguesas e Alienadas com a Nossa História. Lamentável. Amigos meus do Rio e São Paulo, ficaram Perplexos com o Abandono da Nossa História. Lamentável.

    1. Fico muito triste quando ando no centro do Recife e vejo aqueles antigos casario cheios de beleza e história se acabando pelo tempo , pelo descaso de um governo que não se preocupa com a nossa riqueza histórica. Na Rosa e Silva a grande maioria dos antigos e maravilhosos casarões já não existem mais mais! História de Pernambuco ? IPHAN? Preservação? Governo?

  2. Acho que o preço dos alugueis também são vilões, os donos dos imoveis cobram verdadeiras fortunas e não tão nem ai se vai ficar fechado por anos!!

Deixar uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.