“O trânsito é nó cego”

Dia desses, estava pronta para ir ao cinema. Era uma sexta-feira à noite. Mas desisti do filme e, do jeito que me encontrava, deitei na rede e fui ler.  Preferi ficar em casa.Tudo por conta do trânsito maluco que presenciava na Avenida Dezessete de Agosto, com engarrafamento infernal, buzinas altas, motoristas estressados. Então, o que tenho feito? Andado a pé. E muito. Dirigir, o mínimo, só o necessário. Pego Uber, TX, 99. Ou então, o velho busão.

Foi o que fiz, na última edição de passeio do grupo Caminhadas Domingueiras. Tomei o ônibus na frente da minha casa, desembarquei na Rua do Riachuelo (na Boa Vista), onde ficava o ponto de partida do nosso passeio. No caminho, eu só observando o motorista. Paciente, atencioso com os passageiros, cuidadoso na direção. E – coisa rara – dispensava atenção especial, mas muito especial mesmo às pessoas idosas.

Só dava partida quando via que elas estavam acomodadas. Até as aconselhava a sentar-se quando via alguma em pé. Como ando sempre de colete (hábito que adquiri nos tempos de repórter de rua, para não perder caneta, celular, bloquinho, gravador), indagou seu eu era repórter. Respondi: ”Já fui, mas sou jornalista do mesmo jeito”.  E avisei: “Vou fazer uma foto sua, para dizer alguma coisa a seu respeito”. Ele riu. Seu nome é Edvaldo Mendes. E se todos os motoristas dos transportes urbanos fossem como ele, com certeza, a vida do passageiro seria melhor.

Ele estava à frente de um ônibus (ordem do veículo 612), Linha 532, Casa Amarela – Cabugá. Já foi mecânico. Como motorista, só atuou na área urbana. E é chofer há  14, na mesma empresa, a Transcol. Está tentando se aposentar, e vai “tentar negociar” alguma coisa, para completar o que receberá do Inss. Só ainda não sabe com o quê, nem com quem. Quanto ao trabalho, indago: “É preciso ser paciente, à frente de um ônibus com esse trânsito do Recife”? E ele diz: “Quem não tiver (paciência), tem que escolher outra profissão, pois lidar com o passageiro não é fácil”. Depois, completa: “E o trânsito, como sempre, é nó cego”. Desci, me despedi e agradeci a Edvaldo, por desempenhar seu papel com tanta delicadeza.

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Texto e foto: Letícia Lins / #OxeRecife

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