Galpão das Artes e brinquedo popular

Nesses tempos de brinquedos eletrônicos  e virtuais, nada como o Dia da Criança, para lembrarmos o mundo lúdico, alegre e colorido dos brinquedos populares: a pipa, o rói-rói, o  mané gostoso, a bola de gude, o pião, a peteca, as bonecas de pano, o balagandão. Por esse motivo, quero aproveitar a passagem da data para falar do Centro de Criação Galpão das Artes, que acabei de conhecer em recente viagem a Limoeiro, município localizado a 77 quilômetros do Recife. O Galpão das Artes tem um trabalho fascinante, voltado para a memória e preservação desse patrimônio cada dia mais distante de nossas crianças, e que – felizmente – ainda pode ser visto em feiras e mercados populares do Nordeste, incluindo Pernambuco, claro.

Funcionando em um velho e lindo casarão, com seu interior decorado com peças que remetem ao universo em questão, trata-se de uma instituição cultural de direito privado sem fins lucrativos. E que tem lutado para mapear os artesãos que sobrevivem da fabricação desses brinquedos assim como para repassar às crianças ensinamentos de como produzi-los, perpetuando a tradição e garantindo sua memória. O trabalho é tão importante, que o Galpão das Artes já ganhou o título de Pontinho de Cultura (concedido pelo Ministério da Cultura) assim como o Ponto de Memória (dado pelo Instituto Brasileiro de Museus – Ibram).

A entidade também já foi agraciada com o Prêmio Rodrigo de Melo Franco (23ª edição /Iphan), por conta do reconhecimento pelo trabalho de cultura da infância.  O Galpão é reconhecido como entidade de utilidade pública pela Câmara dos Vereadores de Limoeiro. Tem mais é que ser mesmo. Porque o Galpão das Artes desenvolve um belíssimo trabalho e merece todo o apoio do mundo: de empresários, órgãos públicos, voluntários. Pois vem mapeando os artesãos que fabricam esses brinquedos, em cidades daquela região como Limoeiro, João Alfredo, Carpina, Glória de Goitá, Passira e Cumaru. Alguns dos brinquedos como o pião (João Alfredo) e a bola de meia (Cumaru) são produzidos por várias pessoas. Outros têm autoria bem definida, como os bonecos  de Miro (Carpina) e José Lopes (Glória de Goitá), ou o mané gostoso de Jorge Raimundo (Limoeiro). Os brinquedos catalogados somam 18 até o momento.

Uma vez por semana, o Galpão das Artes realiza oficinas com crianças, que manipulam os brinquedos e também aprendem a confeccioná-los. Em seguida, criam histórias a partir desses brinquedos. As runiões ocorrem aos sábados, com 25 crianças por vez. “Nesses encontros, os brinquedos populares motivam as crianças a criarem histórias, o que as ajuda a reduzir a dificuldade na escrita e na leitura”, conta  Fábio André de Andrade e Silva (foto em frente ao mural), idealizador e hoje presidente do Galpão das Artes. “Essas oficinas com contação de histórias inspiraram Elita Ferreira a escrever um livro, Mané Gostoso, que depois decidimos transformar em um espetáculo de teatro”, lembra Charlon de Oliveira Cabral, diretor do Galpão e à frente dos trabalhos com teatro.

Já são mais de dez os espetáculos encenados, muitos deles utilizando cenários e figurinos confeccionados a partir de doações, de retalhos, por exemplo. O Galpão das Artes recebe o público para visitas guiadas. E também promove apresentações de teatro. No próximo mês, volta ao cartaz a peça O peru do cão coxo, que é encenada há quatro anos, e sempre enche a casa, a cada apresentação. E no próximo dia 19, o grupo de Teatro do Galpão das Artes estará em Vicência, onde apresenta o espetáculo A Santa sumiu, para uma plateia de idosos. Conheci o Galpão das Artes por acaso. E a visita terminou sendo uma grata surpresa. É que o local foi um dos escolhidos para sediar o Projeto Um olhar lúdico sobre a dramaturgia de Osman Lins, que percorrerá quatro municípios pernambucanos, sendo Limoeiro um deles. Na qualidade de filha do autor, fui convidada pelo produtor Geraldo Cosmo e pelos diretores do Galpão das Artes para participar da aula inaugural. Aí, conheci o trabalho realizado em Limoeiro, e que deveria servir de exemplo para outras cidades. Sinceramente,  fiquei encantada com o que vi. E acredito que o Galpão das Artes deveria ser incluído no roteiro de visitas de escolas públicas e particulares do Recife. Tudo pela cultura popular!

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Informações e contato: Fábio André (81) 997396207  ou fabioandre.limoeiro@hotmail.com

Texto e fotos: Letícia Lins / #OxeRecife

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