A história de superação de um gênio

João Carlos Martins é um monstro. Um monstro sagrado, entendam, um gênio. Tido como o maior intérprete de Johann Sebastian Bach (1685-1750) no mundo – chegou a fazer mais de 2 mil concertos e a gravar toda a obra do compositor alemão – o pianista é, também, o melhor retrato de história de superação. Depois se submeter a 24 cirurgias e de de perder os movimentos das duas mãos, ele não desanimou. E por isso, o Quem do #OxeRecife hoje, fala desse homem que não desistiu. Resolveu democratizar sua genialidade, repassando seus conhecimentos e a incentivando orquestras e músicos com o maravilhoso Projeto Orquestrando o Brasil. A plataforma digital conseguiu reunir até o momento 500 orquestras e cerca de 15 mil músicos. E segue aumentando a visibilidade de tantos bons grupos musicais existentes por esse Brasil afora.

Foi através do Orquestrando o Brasil que ele esteve comandando um verdadeiro show no último domingo, no Cais da Alfândega,  no Recife, onde mais de 2 mil pessoas estavam na plateia. Apresentaram-se quatro orquestras de projetos sociais de Pernambuco: a Orquestra do Pró-Criança, a do Instituto Passo de Anjo, a do Centro Social Dom João da Costa e a Banda Musical Curica. Esta, a mais longeva. É da cidade de Goiana, tem 171 anos, e atende a 127 alunos. Todos os grupos fizeram muito bonito. No repertório, os compositores mais variados, dos clássicos aos populares. De Beethoven a Bach, de Luiz Gonzaga a Alceu Valença, de Capiba a Luiz Bandeira. O programa também incluiu músicas do cinema, como Além do Arco-Íris, com “jeito pernambucano”, segundo Martins, já que a apresentação incluiu umas batidinhas de maracatu.

Foi uma noite de emoção, de música da melhor qualidade, de apelos para que as pessoas nunca percam a esperança. Mirando-se no próprio exemplo, o maestro contou que fez de tudo para recuperar os movimentos das mãos que, com seu piano, são a razão do seu viver. “Fui a todos os médicos, à Igreja, até ao Pai de Santo. Tomei passes, e ele me disse que em breve uma mão estaria igual à outra. Um ano depois a profecia se concretizou, porque a esquerda também perdeu o movimento”, disse, durante a apresentação. O Maestro, hoje, só consegue movimentar um polegar de cada mão. Mesmo assim, conseguiu reger todas as orquestras juntas, ao final do concerto, quando foi executado Jesus, Alegria dos Homens. Apesar de aplaudido de pé, ele não gostou do resultado.

“Sou muito perfeccionista, e vou reger as orquestras mais uma vez”. Aí, conseguiu levar a plateia ao delírio. Antes de assumir o comando das orquestras reunidas, ele ainda deu um show no piano, tocando uma aria de Bach, despertando o êxtase nos que o ouviam. Com apenas dois dedos, tocou o que vinha do fundo de sua alma. Uma coisa linda, maravilhosa, inacreditável. Mas em se falando desse gênio, tudo é possível. Ele elogiou os grupos que se apresentaram, e alertou. “É muito importante se manter as raízes. Tem muita música que vocês ouvem na TV, mas daqui a um  ano nem se lembram dela. O que a gente viu aqui foi tradição, e é importante manter a tradição com inovação.”

Falando da sua própria odisseia,  deu um recado: todos precisam ter esperança e fé. Acreditar, jamais desistir. Prometeu (e cumpriu) que tocaria no seu inseparável piano, mesmo lhe restando só dois dedos com movimento. Ao falar de Além do Arco-Íris, lembrou a história de um saxofonista americano, que tinha desistido da vida. “Ele achava que nada dava certo, e decidiu se matar. Subiu em um telhado, mas lá em cima decidiu tocar seu saxofone. Aí, começou a juntar gente no meio da rua. Ao ver a aglomeração, ele pensou que ainda não era o momento de desistir. Mas aí esqueceu a segunda parte da música. Aí pensou de novo que nada para ele dava mesmo certo. Pulou do telhado. Mas o suicídio não deu certo, porque ele não morreu. Chamaram a ambulância, e a sirene ligada vinha tocando além do Arco-íris. Ou seja, para muita gente, a música é começo, fim, e salvação.

Para mim, foi uma tarde inesquecível. Até comentei com uma colega: Prá que Rock In Rio se tem Bach, Beethoven, frevo, baião e maracatu à margem do rio Capibaribe, no meio de uma tarde linda de outubro?

Veja vídeo, com o Maestro João Carlos Martins regendo orquestras e coral (Jesus Alegria dos Homens):

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Foto e vídeo: Alexandre Cesário (cortesia) e Letícia Lins

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