Parem de derrubar árvores (200): Degola no Poço da Panela

À véspera do Dia da Árvore – comemorado a  21 de setembro – denúncias que chegam ao #OxeRecife dão conta de novas degolas, dessa vez não em áreas públicas, já vitimadas pela ação da motosserra insana, responsável pelo arboricídio observado em ruas, praças e jardins da nossa cidade. A guilhotina da sexta (20/9) ocorre em terreno privado, no bucólico Poço da Panela, Zona Norte do Recife, onde a Construtora Haut está edificando um empreendimento, ao lado do famoso Jardim Secreto. Sob a proteção de tapumes,  era impossível ver, da rua, o que estava acontecendo lá dentro. Mas o que se ouvia no início da tarde era só o barulho das máquinas. Moradores fotografaram e filmaram a ação do alto dos edifícios onde residem. No terreno antes quase todo verde, o que se vê é a aridez do barro vermelho. Dá uma pena…

E com essa notícia, chegamos a um cálculo triste: completamos, hoje, nada menos de 200 postagens  no #OxeRecife (#ParemDeDerrubarÁrvores) sobre nossas silenciosas e indefesas irmãs, que foram eliminadas na paisagem do Recife. O total soma 356 defuntos verdes. Todos os registros possuem data, foto e endereço, feitos pela editora desse Blog ou por seus leitores. Muitas vezes, recebo a denúncia e vou lá confirmar. O alerta sobre o barulho da motosserra partiu de moradores  daquele bairro, pelas redes sociais.

A preocupação não é à toa. Os residentes em ruas como a Marquês de Tamandaré  e a Luiz Guimarães informaram ao #OxeRecife que três fruteiras seculares estavam sendo derrubadas hoje à tarde. O número foi subdimensionado. Consultei a Haut, que me informou que serão 17 as plantas eliminadas do terreno, “das quais 10 são árvores coqueiros”. Ou seja: uma degola, e tanto.

Segundo a Haut, as mangueiras no meio do terreno “inviabilizariam por todo qualquer empreendimento”. A “supressão vegetal” – nome técnico para o arboricídio – foi autorizada pela Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Recife. No diálogo entre os moradores do Poço, eles reclamam de “árvores seculares” (mangueiras) sendo derrubadas pela motosserra. “O projeto que tem na placa mostra que o empreendimento ocupará quase toda a área. A lei do uso e ocupação só permite construir em 40 por cento do terreno”, reclama um outro morador. “Vende que a pessoa vai morar no verde, sem verde”, lamenta uma terceira residente no Poço.  “Meu Deus, estão acabando com as áreas verdes, é preciso fazer uma denúncia ao Ibama”, fala outra.

CEO da Haut, Thiago Monteiro afirma que vai compensar a retirada das árvores, que atrapalham a edificação do prédio. “Se não fosse a Haut seria qualquer outra construtora, Estamos retirando as árvores, mas preservando mais de 60 por cento de solo natural do terreno”, afirma. E acrescenta: “Toda a cobertura do edifício ao invés de ser laje, telha ou cerâmica será um super jardim suspenso, ou seja, a gente vai aumentar a densidade vegetal da região”.

Para os moradores, a cobertura verde não substitui as árvores arrancadas. “A Haut é muita falácia. O verde deles é cobrir a cobertura de matinhos. E chama isso de cobertura verde! A Prefeitura engoliu a falácia e aprovou o projeto”, diz outra moradora do Poço, com forte penetração na comunidade. “Se você tirar foto do terreno e sobrepor a imagem do projeto, você vai perceber o quanto é impactante o verde que vamos devolver à cidade”, diz o CEO ao #OxeRecife. A Haut assegurou que plantará 32 árvores nativas da Mata Atlântica ( com 2,20 metros de altura) e que fará reposição no caso de morte. 

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos:  WhatsApp/ Moradores do Poço da Panela / Cortesia

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