Calabar ainda intriga, se herói ou traidor

Deu telepatia em Calabar. Enquanto eu escrevia um post sobre o brasileiro que passou de traidor  (no século 17) a herói (no século 21), o colega Emanoel Correia fazia o mesmo, produzindo um texto para colocar nas redes sociais do Grupo Preservar Pernambuco. Enquanto, aqui no #OxeRecife,  eu me limitava a noticiar o resultado de um júri simulado que houve em Alagoas para redimir o polêmico personagem histórico, Emanoel, por conta própria, questionava a pecha de traidor a ele imposta nos livros didáticos de história.

Professor aposentado, Emanoel tem por hobby a fotografia, assim como escrever sobre monumentos, fatos e personagens históricos. Já são mais de 80 textos postados nos grupos dos quais fazemos parte, em caminhadas a pé para explorar a cidade. Ele integra grupos como Olha! Recife, Caminhadas Domingueiras, Bora Preservar, Sem Rumo. E faz parte da Ong recém criada Preservar Pernambuco. Vejam como ele responde à  própria indagação “Calabar, traidor ou herói?”, coincidentemente o mesmo título que usei aqui no último dia 4 de setembro.

“Lembro sempre do tempo das aulas de história, onde os professores ensinavam que a traição tinha um nome: Calabar. E com isso me criei, acreditando nesse enredo tão inconsistente quanto os mestres da época. Vejamos porque esta ideia tão equivocada perdurou por tanto tempo. Nascido em Porto Calvo em 1609,  nas Alagoas que fazia parte da capitania de Pernambuco, Domingos Fernandes Calabar aprendeu  com Dias Cardoso e Matias de Albuquerque as táticas de guerrilhas urbanas usadas no combate aos flamengos.

Ao mudar de lado, soltou essa frase: ‘ Como homem tenho o direito de derramar meu sangue pelo ideal que quiser escolher, como soldado tenho o direito de quebrar o juramento que quebrei enganado’. É justamente em cima disso que esclarecemos a nossa interrogação. Em 1580, Portugal passou para o domínio espanhol, e os holandeses eram inimigos ferrenhos da Espanha. Pois bem, se a exploração da colônia já era uma coisa absurda, depois desse fato as coisas pioraram bastante. Enquanto os holandeses tiravam proveito das nossas riquezas, por outro lado eram mais conscienciosos com os brasileiros, diferente  da aliança portuguesa espanhola.

Quando desertou, em 1632, Calabar passou a usar as táticas aprendidas, causando grandes derrotas aos impérios, pois conseguiram vitórias nos povoados de Igarassu, Ilha de Itamaracá, Goiana, Rio Formoso. Indo da costa do Rio Grande do Norte até Pernambuco. Ao ser  preso em 1635, foi garroteado e esquartejado, sendo suas partes expostas nas cercas de defesa do Forte para que servisse de exemplo para outros que tentassem desertar. O fato é que o tempo não mudou muito não. Pois se naquela época Calabar tomou um lado e foi assassinado, por acreditar em justiça, hoje vivemos dentro do nosso país o entreguismo desenfreado que farão novos calabares aparecerem.

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Texto: Letícia Lins com Emanoel Correia
Foto: Emanoel Correia / Grupo Preservar Pernambuco/ Cortesia

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