História: Calabar é “traidor” ou “herói”?

No Brasil, há personagens que foram considerados no passado como traidores e que pagaram um preço muito alto pela defesa dos seus ideais, sendo punidos com pena de morte. Dois exemplos: Tiradentes (1742-1792), um dos líderes da Inconfidência Mineira; e Frei Caneca, que participou ativamente da Revolução de 1817 (em Pernambuco) e que seria arcabuzado como um dos líderes Confederação do Equador (que eclodiu em 1824). Ambos foram reabilitados pela História. Recentemente um outro personagem – bem mais polêmico do que os dois primeiros – foi perdoado. Domingos Fernandes Calabar (1609-1635) não é mais considerado traidor. Pelo menos na cidade de Porto Calvo, onde passou à condição de herói, depois de “julgamento” realizado em 2018 naquela cidade alagoana, localizada a 98 quilômetros de Maceió.

O resultado do julgamento – do qual participaram autoridades jurídicas de Alagoas – está exposto em uma das paredes do Museu de Porto Calvo, onde estive este ano com o Grupo Caminhadas Culturais, para conhecer o Fortim do Bass, o único erguido em areia pelos holandeses e que ainda está perfeito no Brasil (constituindo-se uma relíquia histórica). Para o júri, ao contrário do que se pensa, Calabar não passou para o lado dos holandeses simplesmente por trair os portugueses, mas sim em defesa do Brasil. “O Colendo Conselho de Sentença ora constituído entende que Calabar passou para o outro lado não como traidor, mas como patriota, entendendo que os holandeses procuravam implantar a liberdade no Brasil, enquanto portugueses e espanhóis tinham interesse em escravizar nosso país”.

Por unanimidade, o Tribunal do Júri reconheceu “a tese sustentada pela defesa em favor do acusado, extirpando de vez as dúvidas existentes e considerando Calabar como herói nacional, como foi Tiradentes, Zumbi e outros que os portugueses também consideram como traidor”. De acordo com o júri, Calabar se alistou para lutar em defesa dos lusos, “deixando para trás sua vida privada, gado e terras de sua propriedades, tornando-se combatente de tropas portuguesas”. Porém, Calabar “aderindo a uma parte expressiva dos brasileiros, estava insatisfeito com a Corte Portuguesa” pois “seu povo era subjugado com maus tratos e pouco ou nenhum reconhecimento”.

Afirmam, ainda, os membros do Júri que “ao contrário dos portugueses, a Holanda buscava expansão de seus domínios, chegando a conquistar em 1631 a Ilha de Itamaracá e oferecendo vantagens ao povo brasileiro”. Comandada por Matias de Albuquerque, a tropa portuguesa voltou a Porto Calvo, retomando a cidade do domínio holandês, quando Calabar foi levado a julgamento por um tribunal militar, sendo sentenciado em 1635. “Foi enforcado, teve o corpo esquartejado e seus pedaços ficaram expostos em praça pública, nascendo nesse momento a associação do seu nome a traidor. “ O julgamento que mobilizou Porto Calvo (como ocorre com os grandes júris populares) mostrou que “a História é sempre escrita por vencedores e no Brasil ele sempre foi considerado traidor” por este motivo.

“Não obstante, na Holanda, ele é um herói”, afirma a sentença, lembrando que lá  “existe uma praça no centro de Amsterdã com seu nome”.“Hoje, a mais antiga freguesia de Alagoas – Porto Calvo – resgata a história, a memória de Calabar e presta diversas homenagens ao seu herói, a exemplo do chamado Alto da Forca, onde dizem que ele foi enforcado, com seu nome, também, no fórum, clube social, bar e restaurante de Porto Calvo. Para  os alagoanos, Calabar agiu “sob o manto do patriotismo” e por esse motivo, lhe foi conferido o “status de herói nacional”.

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Vânia Patriota / Cortesia

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