O “oásis” do “deserto” de concreto

É inóspita a Rua Alto Santa Isabel, onde se conta nas pontas dos dedos uma ou outra árvore. Caminhei do começo ao fim dessa via do bairro de Casa Amarela, na Zona Norte do Recife, e não observei mais de cinco árvores nas calçadas. Um calorão infernal. Mas eis que de repente me defronto com um pequeno oásis na minha frente. É uma  área verde, jardinada, que fica na esquina da Alto Santa Isabel com a Rua Alexandrino. Segundo relatam os moradores, o local era um dos pontos de descarte irregular de lixo.

“Era rato, gabiru, barata, tudo invadindo a casa da gente”, relata Vera Maria de Oliveira, a Verinha, moradora do Alto Santa Isabel e uma das “jardineiras” do pedaço. Ela conta que havia uma casa na esquina, que atrapalhava a passagem de ônibus (ainda hoje muito estreita para os coletivos) e que terminou provocando vários acidentes. Para evitar riscos maiores, a Prefeitura desapropriou o imóvel  demoliu a residência. Sem a casa, o terreno virou depósito informal de lixo, como sempre acontece no Recife, quando uma área fica sem ocupação.

O jeito foi intervir. A própria Prefeitura decidiu criar uma praça, a Nelson Poeta, dedicada a uma figura popular no bairro, já falecida, cujos versos estão inscritos na parede. “Te une Casa Amarela/ A luta não terminou/ apesar de sermos fracos/ nós tem Deus por defensor./ Grande Bairro do Recife/ Grande povo, bom lugar/ Oh, Casa Amarela, como vivem a te explorar./Nos teus córregos e morros/ Tuas terras dono não tem/ Tuas terras não tem dono/ tuas terras é de ninguém”. Em outro lugar da praça, ele se apresenta: “Meu nome é Nelson Barbosa/ Fiz músicas, cantei cordel/ Nasci em Casa Amarela/ Oiteiro, Alto Santa Isabel/ Nelson Poeta nos morros/ Deixa escrita no papel”.

Nelson Poeta se foi. Morreu há alguns anos. Mas sua herança permanece na Praça a ele dedicada, que tem rústicos banquinhos em concreto e uma mesinha redonda. O que chama atenção, no entanto, é o seu jardim, carinhosamente cultivado pelos moradores. “A Prefeitura demoliu a casa, o terreno virou um lixão, e depois eles voltaram para a  fazer praça. Mas botaram poucas plantas. Aí a gente acrescentou pinheiro, Santa Luzia, jasmim, flamboyanzinho e outras”,conta Verinha. E toda tarde, um morador se responsabilizar para molhar”, diz ela, que se orgulha de ser uma das jardineiras do pedaço.

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Texto e fotos: Letícia Lins / #OxeRecife

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