Art déco: Miami ou Recife?

Em Miami, somam cerca de 800 os prédios em Art Déco que, segundo os especialistas, constituem a maior concentração de edificações naquele estilo do mundo. E eles são considerados um patrimônio tão importante que constam do Registro Nacional de Lugares Históricos dos Estados Unidos. Lá, o Déco (que surgiu em 1910 na França) virou uma das principais atrações turísticas daquela cidade tão procurada por visitantes de todo o mundo. O estilo começou a se impor por conta de empreendedores que queriam levantar o astral dos americanos, então abatidos com a recessão gerada a partir da quebradeira da Bolsa, em 1929.  A intenção era que esses prédios passassem a ideia de glamour, exuberância e fé no processo tecnológico.

No Recife, a Art Déco que se seguiu ao estilo eclético, também marcou época. Mas surgiu por um outro motivo. Foi uma uma “novidade, um estilo que mais se aproximasse do moderno”, que se espalhou durante a vigência do Estado Novo  (na verdade a violenta ditadura comandada pelo então Presidente Getúlio Vargas), segundo lembra Francisco Cunha que, como sempre ocorre, atuou como guia do grupo. Ditaduras e política à parte,  a Art Déco foi o tema do passeio das Caminhadas Domingueiras Olhe pelo Recife, realizada na manhã do domingo e da qual participei, juntamente com mais de cem pessoas.  Ao contrário de Miami, no entanto, algumas das áreas onde o estilo predomina não estão bem cuidadas no Recife.

 

Dois exemplos: a Avenida Guararapes e a Praça do Sebo. Ambas estão entregues às baratas. Na primeira, os edifícios em condições melhores estão pintados, porque são utilizados como faculdades particulares. As áreas públicas, no entanto, deixam a desejar, como veremos a seguir. Nosso percurso foi um pouco longo. Saímos do Marco Zero e fomos até o Mercado da Encruzilhada. Primeira parada:  (prédio da Receita Federal) na  Avenida Alfredo Lisboa, em estilo Art Déco. Ali, também, no mesmo estilo há antigo Moinho do Recife. Já na tradicional e mais antiga rua do Recife, a do Bom Jesus, o  clássico, o colonial, o eclético convivem com o Art Déco, sendo que em algumas edificações percebe-se as marcas (com as devidas adaptações) dos estilos anteriores.

Saindo do Bairro do Recife, rumamos para Santo Antônio. Neste,  há muitas  edificações que sofreram influência do estilo. Temos, entre outros: a antiga sede do Jornal do Commercio (hoje da OAB) e o Forum Paula Batista (onde foi antes o Grande Hotel). Na Avenida Guararapes e arredores, concentram-se os prédios como Sulamérica, Almare, Almare Anexo e o dos Correios. Tudo Art Déco.  Naquela via, aliás, quase todos os prédios são nesse estilo. Infelizmente, diferente de Miami, as calçadas estão degradadas, há fachadas pichadas, quiosques de ambulantes que mais parecem um favelão e a vegetação está cada vez mais escassa naquela área do Recife.  Pintados, em boas condições, só os utilizados como estabelecimentos educacionais. Entre os demais, a maior parte dá a impressão de abandono. Na Boa Vista, visitamos o Hospital do Exército, que fica na Rua do Hospício, outro exemplar do estilo  que predominava no Recife entre as construções erguidas nas décadas de 1940 e 1950.  De lá, caminhamos até o Mercado da Encruzilhada, que acredito ser o único do Recife em Art déco. Há outros exemplares do estilo pelos quais não passamos, como o Clube Náutico (nos Aflitos) e a Fundação Joaquim Nabuco (no Derby). Sobre estes dois e outros prédios, conversamos depois.

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Texto e fotos: Letícia Lins / #OxeRecife

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