Lixo: Dia de”pescaria” no Capibaribe

Mais de 50 barcos participam, neste momento, da gincana Há Gosto pelo Capibaribe,  que tem como objetivo chamar a atenção de autoridades e da população para a situação de calamidade em que se encontra o Rio Capibaribe, hoje transformado em esgoto a céu aberto e depósito de lixo de todos os tipos. O evento é promovido pela organização não governamental Recapibaribe, que tem como sede o Capibar, que fica na Rua Tapacurá, à margem do rio, entre os bairros de Monteiro e Casa Forte.

A “decoração” do Capibar é toda feita com o que é coletado naquele que já foi definido como o “Cão sem plumas”, por um dos poetas que mais cantou o Capibaribe em verso: João Cabral de Melo Neto (1920 -1999). Pois enquanto aguardava a saída dos barcos, fui observando o que já foi colhido, só pelo Capibar, no Rio: monitores de televisão e computador, máquinas de lavar e de costura, teclados de computador, privadas, sofás, colchões, teclados, carcaças de geladeiras, brinquedos, placas de trânsito. Só capacetes de motociclistas contei mais de 30. É brincadeira? Onde é que está a consciência desse povo, meu Deus? É  pura maldade tratar um patrimônio natural dessa forma, como se fosse um lixão.

Já não basta a omissão das autoridades, que não implantam saneamento básico nas cidades banhadas pelo Capibaribe, e que jogam nele seus dejetos? São 270 quilômetros de extensão, atravessando 42 municípios.  Atire a primeira pedra aquele que não joga um só despejo de esgoto doméstico no rio. Impressionante, no entanto, é que apesar de tudo, ele resiste, caudaloso e lindo. No Recife, passa por cerca de 15 bairros que também lhe castigam com carga de maus tratos. Para quem vive da pesca, é fácil perceber as consequências. “A situação do Capibaribe é cada vez pior”, comenta Severino Batista de Souza, 69, 40 de pesca. “Moro em Santo Amaro e costumo pescar no Capibaribe ou na Boca da Barra, onde chegava a tirar 60 quilos de pescado por noite”, afirma. “Hoje, não consigo voltar com mais de cinco quilos e tem dia que retorno sem nada”, lamenta. Severino fazia pesca submarina, e chegou capturar um peixe de 200 quilos, um mero, hoje com pesca proibida, por ter-se transformado uma espécie ameaçada.

“Com a poluição, até o mar está ficando prejudicado, é muito plástico que a gente vê lá dentro e a quantidade de peixe grande é cada dia menor, tanto no rio quanto no mar”, critica. Diz que espécies antes abundantes em sua pescaria pelo Recife estão ficando raras: “camorim, carapeba, xaréu e bambo ninguém vê mais”. Coordenadora da Recapibaribe e dona do Capibar, Socorro Catanhede espera fechar o dia, hoje, com algumas toneladas de lixo recolhido. O trecho da limpeza fica entre o bairro de Casa Forte e a Ilha do Retiro, onde a Emlurb fará a pesagem e coleta dos detritos recolhidos pelos pescadores. “É muito triste observar pescaria de lixo, de um rio de onde a gente deveria tirar peixe”, diz Socorro. “O Capibaribe jamais deveria ter se transformado em destino de esgoto”, lamenta. “Até quando?”. O Há Gosto pelo Capibaribe acontece todos os anos, sempre no dia 31 de agosto. Além dos pescadores, a comunidade participa da ação.

Vejam só o que se “pesca” no Rio Capibaribe:

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Texto e fotos: Letícia Lins / #OxeRecife

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