Praça de Casa Forte tem três adoções

Ela representa uma espécie de identidade do bairro de Casa Forte. É tida como um dos primeiros jardins de Roberto Burle Marx, e apontada por especialistas como o seu primeiro projeto paisagístico em área pública.  E, claro, é uma das praças contempladas no livro Burle Marx e o Recife: Um Passeio pelos Jardins da Cidade, que será lançado na noite dessa terça-feira (27), no Pátio Café, no Bairro das Graças. Frequento essa praça desde criança e ela faz parte de minhas memórias afetivas. Lembro-me  que, com meu pai, ficava ao lado dos seus tanques, jogando alguma comida para os peixes, o que era comum naqueles tempos. Era uma diversão domingueira da criançada, muito comum na Zona Norte do Recife. Passo quase todo dia pela Praça de Casa Forte, pois fica no caminho da minha residência, no Bairro de Apipucos.

E no início desse mês, lá estive com o Grupo Caminhadas Domingueiras, em um roteiro que deu início às comemorações da Semana Burle Marx, com explicações didáticas sobre sua história, suas plantas. O passeio incluiu outros projetos do famoso paisagista, agora relatadas em livro dessa dedicada equipe aí na foto ao lado, comandada por Ana Rita Sá Carneiro, Coordenadora do Laboratório de Paisagismo da Ufpe. Foi ela que iniciou a luta em defesa dos jardins de Burle Marx.

Com sua equipe, Ana Rita realizou o inventário, deflagrou a luta pela transformação da herança do paisagista em jardins históricos e forneceu subsídios para que parte deles – seis, no caso- fossem tombados pelo Iphan. Voltemos à Praça de Casa Forte. No verão, ela fica ainda mais bonita, com seus flamboyants floridos. Também chama a atenção seus  pés de pau-felício, pau-rei, pau-mulato e abricó-de-macacos (com suas flores rústicas), árvore da qual já vi cair no chão uma família de gambás (timbus), logo resgatada pela Cprh (Agência Estadual de Meio Ambiente).  Uma das atrações principais da Praça eram suas vitórias-régias, que ficaram restrita à memória dos moradores mais idosos e a postais da época.

O que pouca gente sabe é que – dividida em três jardins – a Praça de Casa Forte tem um tipo de vegetação em cada um. “A intenção de Burle Marx, em trazer representações de domínios vegetais, expondo plantas de diferentes ecossistemas, dá à Praça um caráter educativo para que as pessoas conheçam, admirem e se aproximem mais da natureza”, informa o livro. Quando for à Praça, preste atenção nessa informação: no lado que faz esquina com a Avenida Dezessete de Agosto, foram colocadas plantas nativas da Mata Atlântica. No meio, onde há uma lâmina d´agua circular, foram distribuídas espécies da Amazônia (incluindo as vitórias-régias que não mais existem). E o  extremo oposto à Dezessete – do lado do Colégio Sagrada Família – foi destinado ao plantio de espécies exóticas. Os autores do livro lembram que “esse jardim moderno de Burle Marx, composto de três partes, reúne exemplares de plantas brasileiras e exóticas ainda não usadas em jardins públicos, ao mesmo tempo em que contempla a cana-da-índia e aninga, comumente encontrada nas áreas de charco da cidade”.

Na verdade, a disposição da Praça, em três jardins, já existia antes da intervenção do famoso paisagista, que em 1935 lhe impôs mudanças tendo duas principais fontes de inspiração: o famoso Jardim Botânico Kew Gardens (Inglaterra) e a paisagem nativa da Mata Atlântica (hoje formada pelo Parque Estadual de Dois Irmãos). A Praça tem também a sua história. Pois ali funcionava no século 17 o Engenho de Ana Paes, onde foi travada a Batalha de Casa Forte, entre portugueses e holandeses. Hoje a situação da Praça de Casa Forte é um pouco melhor do que a de outros jardins históricos do Recife. É que cada uma das três partes dela possui um “pai” adotivo:  Hospital Veterinário Harmonia e Royal Cannin (jardim em frente ao Colégio Sagrada Família), DC Paisagem (jardim central) e Colégio Casa Forte (jardim do lado da Avenida Dezessete de Agosto). Seria bom que outros jardins históricos – como a Praça Dezessete e a Maciel Pinheiro – ganhassem pais adotivos que, pelo menos, garantissem  limpeza desses tão bonitos e injustamente abandonados locais, aparentemente desprezados pelo poder público.

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Serviço:
O quê: Lançamento do livro Burle Marx e o Recife: um passeio pelos jardins da cidade
Onde: Restaurante Pátio Café & Cozinha, na Praça do Entroncamento, Graças
Quando:  Terça, 27
Horário: 19h
Entrada: Acesso gratuito
Preço do livro: R$ 50 e R$ 15 (e-book)
O que mais: concerto com a Orquestra Vitória Régia

Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Divulgação

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