Poço da Panela: plantio de árvores contra Atacado dos Presentes no bairro

A julgar pelo que disse o Secretário de Mobilidade e Controle Urbano do Recife, João Braga, é irreversível a construção de um  lojão do Atacado dos Presentes, no Poço da Panela, no terreno de 12.153 metros quadrados, onde funcionava a secular e belíssima Casa de Saúde São José, e que foi criminosamente demolida. Com ela, perdeu-se um pedaço da memória do bucólico bairro da Zona Norte, em área que está para receber o novo monstro de concreto. Ou seja: o Poço da Panela é vítima em dobro. Primeiro, com a demolição de um valioso patrimônio arquitetônico. Segundo: com a implantação de empreendimento, que pouco ou nada tem a ver com a identidade do já pouco tranquilo bairro histórico.

Depois de muita mobilização dos moradores, foi convocada reunião com representantes da Prefeitura e do empreendimento. O encontro foi na noite da quarta-feira, no salão paroquial da Igreja de Nossa Senhora da Saúde, para discutir o projeto. Ou melhor, rediscutir, já que o edifício com 22 mil metros quadrados de construção deve provocar transtornos ao bairro, não só à mobilidade quanto ao meio ambiente. No primeiro caso, são estreitas as vias de acesso ao lojão, que ficará de frente para a Avenida Dezessete de Agosto com a lateral para a Rua Dr Seixas, que é estreita,  tem apenas 150 metros de extensão, e que nem calçada é. A Dezessete já está praticamente no limite e não comporta volume maior de tráfego, segundo os moradores da Zona Norte. A previsão é que depois de concluído, o Atacado dos Presentes chegue a mobilizar mais de 2 mil carros por dia.

Poço da Panela, em reunião com Prefeitura:  Documento e plantio de árvores contra Atacado dos Presentes no bairro.

“Não estou discutindo a qualidade do projeto, mas tentando mostrar que ele é inadequado para o Poço, já que vias de acesso estão saturadas”, alertou Marcos Mendonça, lembrando que outras lojas do Atacado encontram-se em vias como a BR 101 (Curado) e a Avenida Herculano Bandeira (Pina), que possuem características bem diferentes da Dezessete, uma das principais da Zona Norte. E que é bem mais estreita do que a Herculano ou a BR. “Morei na Torre, e a instalação do Atacado dos Presentes mudou o bairro que, pouco a pouco, vai perdendo seu sentido de comunidade, com a invasão de outros edifícios”, afirmou Catarina Rosendo. Luís Catanhede teme pelo destino do Rio Capibaribe e pelo lençol freático da região. “A garagem terá dois andares para baixo (estacionamento subterrâneo),  isso significa que o lençol freático será afetado, diz. Com o bairro com saneamento precário – como ocorre em todo o Recife aliás – ele acredita que o Rio Capibaribe receberá mais dejetos, “o que vai agravar sua situação de podridão”.

Moradores da beira do rio, no Poço, alertaram que “o caos já está instalado”. Mas mostraram estranheza com os moradores de espigões do bairro, que não se opuseram na época à construção de arranha-céus e que hoje moram nesses mesmos prédios luxuosos, que verticalizaram o bairro e congestionaram o bairro. Para eles, o Atacado pode representar oportunidade de emprego. Os que são contra, no entanto, estão preparando outra mobilização: vão plantar mudas de árvores no entorno do terreno em questão no dia 8 de setembro.  Toda a população da Zona Norte está convocada. A mobilização está prevista para ter início às 10h. Arquiteta, Fátima Barreto Campelo sugeriu ao Secretário uma consulta pública sobre o tão polêmico projeto. “Ele está tramitando dentro do que a lei prevê”, disse Braga, que mostrou não ver a sugestão com simpatia.  Até agora, está concluído apenas o laudo técnico relativo à cobertura vegetal do terreno. Mas, segundo os empreendedores, encontram-se em análise: estudo de impacto na vizinhança, estudo do impacto no tráfego e na mobilidade, análise na Emlurb do reservatório de retardo (destino de águas pluviais à rede pública) e licenciamento da Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade. Começou a circular um abaixo assinado no Poço, sugerindo a desapropriação do terreno, para o qual já foi cogitada – no passado – a construção de uma loja dos Supermercados Carrefour, que também gerou muita confusão.

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Foto: Letícia Lins e  e Márcio Elich (do movimento #OPoçonãovaiseratacado)

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