Final feliz do cão sem dono e peregrino

Pensem em um cachorrinho disposto. Esse animal aí da foto acompanhou peregrinos durante a Caminhada da Taquara, que saiu do Recife no dia 4 de agosto com destino a Taquaritinga do Norte, município que fica no Agreste, a 164 quilômetros da capital. O grupo partiu do bairro de Dois Irmãos (na Zona Norte) de onde o cão, então desconhecido, decidiu seguir a turma. Chegou até a cidade de Paudalho – provavelmente iria mais longe – onde terminou sendo acolhido pelo dono um bar, que já tinha quatro outros “andarilhos” em casa.  O cachorro chamou a atenção pela persistência e pela solidariedade.

“É um animal  incansável, dócil e muito especial”, afirma a médica Socorro Brito, que só participou da primeira etapa da caminhada, fazendo a pé um percurso de 24 quilômetros. “O que achei interessante é que ele seguia com o grupo, mas esperava sempre pelo pessoal que ficava lá atrás”, diz. De volta para casa, Socorro acompanhou a saga do animal pelo WhatsApp do grupo. Decidiu levar  um veterinário para visitar o cão, o que deve fazer nos próximos dias. E pretendia ficar com ele. Mas desistiu da ideia. “Seria uma maldade confinar um cão tão livre em um apartamento”. Mas conforma-se: “Há várias pessoas que querem ficar com ele”.

Ela achava estranho que mesmo aparentando estar faminto, o cão era comedido na alimentação que lhe era fornecida pelos caminhantes. “Comia pouco, evitava passar do limite do próprio estômago”. E rejeitava água limpa. “Ofereci do meu cantil, mas ele só gostava de beber nas poças que achava no percurso”, afirma.  Sem nome, o cão ganhou um bem sugestivo: Peregrino. E ao chegar em Paudalho, estava bastante cansado, por conta da patinha machucada. Justamente a que tem uma deformação, que Socorro acredita ter sido decorrente de um acidente.

“Ele tem um problema na patinha, mas mesmo assim, foi até Paudalho.  Lá, os peregrinos começaram a se preocupar com sua saúde”, diz a médica, que se emociona quando fala do animal.  Também tem lesões nas orelhas, que podem ter decorrido de maus tratos ou briga com cães de rua. Ao chegar em Paudalho, o cão arranjou um dono. Não sei o seu nome. Apenas que é o dono do “Bar do Ilo”. Foi ele que acolheu o Peregrino.  O homem contou que os outros quatro que mantém em casa também chegaram a Paudalho acompanhando grupos de  caminhantes. No caso, romeiros, durante a festa religiosa mais famosa de Paudalho, que é dedicada a São Severino dos Ramos. Vida longa para Peregrino. Ele merece. Houve uma vez que fui  andando com o MeninXs na Rua ( alguns dos quais integram a Caminhada da Taquara) do Recife até Aldeia.  E um cachorrinho também se integrou, fazendo o percurso completo ao nosso lado.

O grupo dos MeninXs havia saído da praça Farias Neves, também em Dois Irmãos. E o cão nos acompanhou até Aldeia. Não sei o que aconteceu ao final, porque tinha compromisso no Recife e não fiquei com o pessoal para almoço, do qual o retorno seria de van.  Uma outra vez, eu estava a trabalho em Porto Seguro, no Sul da Bahia, e um cão da rua decidiu me acompanhar por uma hora e meia durante a caminhada  matinal. Não desgrudou. Terminamos criando uma boa sinergia. Ele me seguiu até o hotel em que eu estava hospedada e no qual o cachorro queria entrar. Foi barrado na recepção.  Mas o seu olhar, quase me suplicando para que o acolhesse, me deixou com o coração moído. Ainda fiquei lá por mais de uma semana, a serviço, durante as comemorações dos 500 anos do Brasil. Mas não mais o vi. Torci para que alguém tivesse ficado com ele. Mas jamais o esqueci.

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Caminhada da Taquara / Divulgação

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