Fome no Brasil é uma grande mentira?

Se o médico, cientista social, professor, geógrafo, nutrólogo e deputado cassado Josué de Castro (1908-1973) fosse vivo, talvez ficasse indignado com o que teria ouvido do Presidente da República nessa sexta-feira (19). Em café da manhã com jornalistas estrangeiros, o Capitão disse que “Passar fome no Brasil é uma grande mentira”. Será?

Segundo órgãos internacionais, como a Onu, no Brasil há pelo menos 5 milhões de pessoas com problemas nutricionais, que não se alimentam como deveriam. Ou, pelo menos, como gostariam. Mas não é preciso apelar para os números para ver o equívoco daquela afirmação. Provavelmente o capitão não tem andando pelas ruas do Brasil.

Cenas  visíveis a qualquer hora do dia nas calçadas do Mercado de São José:  onde há miséria há fome. Mentira?

Se ele for dar uma voltinha por qualquer grande cidade – São Paulo, Rio de Janeiro, Recife – vai encontrar muita gente em situação de miséria. Pessoas que dormem sob as marquises, em cima de gramado (como o da foto, na Praça Maciel Pinheiro, no Recife), sob as pontes. E que vivem de esmolas e cujo alimento mais seguro é aquele que lhes é levado por campanhas sociais, como os sopões. Está certo que as autoridades não gostam de expor as mazelas dos países que governam.

Até porque o aumento da pobreza escancara o fracasso ou a inexistência de programas sociais que  deveriam ter sido implementados para promover o desenvolvimento econômico e social e reduzir as chagas da miséria.  Depois de tentar tapar o sol com a peneira, ou ser pego na mentira, a conversa mudou à tarde, quando o Capitão foi novamente abordado sobre a declaração pelos jornalistas.  Aí, tentou consertar: “Falei que alguns passam fome no Brasil”. Alguns? Manda ele andar pelas palafitas à margem do Rio Capibaribe, ou mesmo por ruas do Centro, como Imperador e Imperatriz. Se só no Recife a fome não atinge apenas “alguns”, imaginem no Brasil inteiro. Houve um tempo, durante a ditadura, que as autoridades diziam: “A economia vai bem mas o povo vai mal”. E agora, o que dizer?

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Texto e foto: Letícia Lins / #OxeRecife

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