Pensem, em 1964 já tinha fake news: bacamarteiros viraram “guerrilheiros”

Eram os bacamarteiros guerrilheiros? Ou melhor, integravam algum “exército de libertação” durante os agitados anos 1960, quando aconteceu o Golpe Militar de 1964? Não, não eram milícias. O folguedo, tão típico de Pernambuco, foi vítima das hoje famosas fake news , que circularam naquela época. E as notícias distorcidas até ganharam as páginas dos jornais do sul, quando as atenções do noticiário nacional se voltavam para o nosso estado, então sob a agitação das Ligas Camponesas, lideradas por Francisco Julião. E que, para as forças conservadoras, desestabilizavam a aristocracia açucareira, a  família e a propriedade.

Lembrei desse fato, no último final de semana. Só não recordava onde tinha visto a informação. Mas ao assistir à exibição dos bacamarteiros, no dia 22 de junho, durante a Procissão dos Santos Juninos, em Casa Amarela, o episódio ficou martelando na minha cabeça. Afinal, foram muitos os “tiros” (na verdade de pólvora seca) disparados pelas armas do grupo folclórico, que participou daquela manifestação religiosa. Então, lembrei desse fato curioso da nossa história. Que os bacamarteiros foram tidos como guerrilheiros, no século passado, em uma versão distorcida de um simples folguedo popular . Me veio a curiosidade sobre a origem, que o pesquisador Olimpio Bonald Neto atribui ao retorno das tropas que participaram da Guerra do Paraguai, no século 19. Ou seja, a missão de guerra dos bacamarteiros faz parte, na verdade, da “pré-história” da manifestação. Mas guerrilheiros, os brincantes no século 20 jamais o foram.

Que diríamos nós, se em 2019 essas animadas vovós bacamarteiras fossem confundidas com guerrilheiras?

Mas nem sempre eles foram entendidos como brincantes que são. De acordo com o livro O Caso eu Conto como o Caso Foi, de Paulo Cavalcanti (1915-1995), em 1964, os “golpistas” espalharam a versão de que os bacamarteiros eram “grupos armados a serviço dos comunistas”. Pode, um negócio desse? Veja o que diz o ex-deputado, naquele seu livro de memórias. “E, como não tivessem os golpistas encontrado armas guardadas clandestinamente por Miguel Arraes (então governador do Estado) para desfechar a ‘revolução bolchevista’ em Pernambuco – afora o que existiu legalmente nos quartéis da Polícia Militar – publicaram-se na imprensa do sul do país fotos de bacamarteiros de Caruaru, grupo folclórico que se exibe com suas garruchas e mosquetões, nas festas do ano como sendo ‘soldados do exército de libertação’, a serviço do governo”.

E haja fake news que, no século 20 não corriam com a igual velocidade do século 21. Mesmo assim, impuseram muitas dificuldades para que Olimpio conseguisse publicar seu livro. Logo naquele tempo, que tudo era “subversão”.  Como se vê, já na época, as fake news provocavam estrago. Principalmente à vida de intelectuais e de lideranças políticas tão visadas (e avançadas para os padrões da época), como era o caso de Arraes. O então governador terminou sendo deposto pela ditadura militar, preso e obrigado a viver no exílio.

Recentemente o livro de Bacamarte, Pólvora e Povo  (de Olimpio Bonald) foi reeditado pela Cepe (Companhia Editora de Pernambuco). No prefácio da reedição, Ivan Marinho de Barros Filho lembra as acusações indevidas. Professor, especialista em economia da cultura e Presidente da Sociedade Bacamarteira do Cabo , ele afirma que em Caruaru – a 130 quilômetros do Recife – “agentes da Inteligência Revolucionária alegavam se tratar, os bacamarteiros,  de milícias dos guerrilheiros camponeses de Arraes”. E depois… ainda tem gente em Brasília dizendo que nunca houve ditadura. Mas a história, ou melhor, as histórias estão aí para contar. E essa é apenas uma das mais grotescas delas. Houve outras, como livros sobre o cubismo apreendidos. Para os milicos “revolucionários” de então, os livros não eram sobre o movimento artístico que teve em Picasso seu maior expoente. Mas sim, publicações subversivas sobre Cuba, onde Fidel Castro e Che Guevara haviam implantado um regime comunista, depois de impor derrota à invasão “imperialista” americana.

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Chris Botelho (cortesia) e Letícia Lins

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