Procissão dos Santos Juninos: São João verdadeiro, sem precisar de funk nem DJ

Em 2019, não compareci a nenhuma Procissão Acorda Povo, manifestação secular que ainda percorre alguns bairros do Recife, como Campo Grande e Campina do Barreto, com reverências a São João e Xangô. E que, como toda festa de rua voltada para divindades, tem o lado religioso e o profano.  E também muito sincretismo. Há  brincantes que dizem que é a “única procissão católica dançante” em Pernambuco.  Já maracatus e terreiros dão início ao Acorda Povo com Xiré para Xangô. O xiré é a roda, onde se dança para homenagear um orixá. A exemplo do que faço a cada São João – compareci à Procissão dos Santos Juninos, que acontece há treze anos, e  que é uma manifestação bonita, singela e cujo público vem aumentando. Sempre espero o cortejo no Sítio Trindade, em Casa Amarela, Zona Norte do Recife, onde o desfile é encerrado.

Mas esse ano subi a pé a Ladeira do Morro da Conceição  (o trânsito para subir estava interditado),  para assistir a todas as etapas da festa, desde a concentração até a chegada, no Sítio. Não me arrependi. O que vi foi um São João autêntico, bem diferente daqueles que ocorrem em cidades do interior, como Caruaru e Arcovede. Ou seja, a Capital está preservando os tradicionais festejos juninos melhor do que vêm fazendo o Agreste e o Sertão. São João é São João. Carnaval ou rave – com Anita, Alok  e companhia – é outra coisa. Pois o que vi no último sábado,  foi sim, um autêntico e lindo São João que dá até saudade dos tempos  juninos da infância da gente, quando as opções da festa eram  a casa da gente, os sítios, fazendas e arraiais como o próprio Sítio Trindade, ainda sem o brilho e os paetês das quadrilhas de hoje.  A procissão teve pífanos, bacamartes, bandeiras de São João, Santo Antônio, São Pedro, Santana, São José.

Procissão dos Santos Juninos encerrou cortejo no Sítio Trindade, em Casa Amarela: linda e carregada de fé e emoção

A partir das 16h, os grupos começaram a se concentrar na Praça do Morro da Conceição. Às 17, eles entraram na na Igreja de Nossa Senhora da Conceição,  onde receberam as bênçãos do Reitor do Santuário, Padre Mailson. Em seguida, o cantor e forrozeiro Josildo Sá entoou a Ave Maria Sertaneja. Teve falinhas de autoridades, como a Secretária de Cultura Leda Alves, que prestou homenagem a Marcelo Varela, amante da cultura popular e criador do evento.  E que apesar de estar se recuperando de um problema grave de saúde, não mediu esforço na organização da festa.

Em seguida, os grupos saíram pelas laterais da igreja, passaram aos pés de Nossa Senhora da Conceição e se organizaram na rua de onde formaram o cortejo rumo ao Sítio Trindade. Eram centenas de bandeiras, brincantes com trajes típicos, bacamarteiros, andores (sim, além do principal, houve quem levasse os seus com o patrono de cada grupo).  Com direito a música, e paradas para disparos de bacamarte. Ao chegar ao lado da Igreja do Arraial, na Rua da Harmonia, a Forrovioca estava esperando o cortejo, que ganhou seu lado profano.  No Sítio, o andor com os santos juninos foi saudado com música (tanto metais quanto pífanos). Colocado no terraço do chalé,o andor ganhou reverência de todas as bandeiras juninas. Muito lindo, viu. Quem não foi, perdeu. São João de verdade!

Veja, no vídeo, a chegada da Procissão dos Santos Juninos ao Sítio Trindade, o arraial mais tradicional do Recife:

 

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Texto, foto e vídeo: Letícia Lins/ #OxeRecife

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