A língua “incorrupta” de Santo Antônio

Que Antônio, um dos santos juninos, é muito cultuado no Brasil, todo mundo sabe. No Nordeste, principalmente. No Recife, acontecem sempre rezas e distribuição dos pães, todas as terças-feiras. As cerimônias ocorrem no Convento Franciscano de Santo Antônio, que fica na Rua do Imperador, no Bairro de Santo Antônio, onde há um nicho dedicado ao santo. Os católicos mantêm uma crença, segundo a qual quem guardar aquele pão terá garantida fartura por um ano. Santo Antônio também é tido como milagreiro e casamenteiro. Muita gente – principalmente as mulheres – ainda hoje, em pleno século 21, acreditam que ele tem o dom de lhes arranjar esposo (a). É fazer uma  promessa e esperar.

Na nossa cidade, no entanto, não é tão comum a trezena de Santo Antônio em ambientes domésticos.  As rezas acontecem mais nos templos, embora no interior ainda ocorram nas casas. Amigo meu residindo em Salvador, Fernando Batista está impressionado com a devoção dos baianos ao Santo. Como os presépios que montamos no Natal,  lá são feitos pequenos altares em homenagem a Antônio (foto à esquerda).  Há sempre trezenas, reunindo vizinhos e amigos. E ao contrário do Recife, onde os pães são distribuídos na igreja como vieram da padaria, em Salvador, eles são embrulhados de forma tão cuidadosa, que até lembram os brilhantes papéis dos ovos de Páscoa. Quem pegar o pão – nas casas (em Salvador) ou na igreja (no Recife) – deve levar para casa e colocar em um depósito de farinha de mandioca. É o truque para que a massa fique conservada por todo o ano, garantindo fartura à família. No Nordeste, são muitas as procissões para Santo Antônio.

Tanto lá quanto em Salvador,   quanto no Recife a ladainha é sempre rezada em latim:  Christe eleison/  Christe audi nos/  Christe exaudi nos/  Pater de Caelis, Deus /Miseré em nobis/ Fili, redemptor mundi, Deus/ Miseré em nobis/ Spiritus Sancte, Deus. Mas em Salvador, as famílias preparam livretos (foto à direita), para distribuir aos visitantes, com todas as orações. Nos encontros para rezas, pães são distribuídos. Ou seja, além da “obrigação” de arranjar maridos ou esposas para pessoas que precisam de companhia – é tido como santo casamenteiro – ele ainda tem de garantir fartura para quem o cultua. Fernando  me envia fotos e vídeo da trezena de Santo Antônio, no prédio em que está residindo, no bairro do Garcia, em Salvador, onde as trezenas reúnem vizinhos todas as noites de junho.

Santo Antônio nasceu em Lisboa, mas  morreu  na Itália, no dia 13 de junho de 1231, aos 36 anos, depois de muitos milagres realizados. E eram tantos que um ano após a morte, em 1232, foi canonizado pelo Papa Gregório IX. Ele é padroeiro de Lisboa, onde nessa época se celebram as festas antoninas. Mas seus restos mortais encontram-se na Itália, na Basílica de Santo Antônio de Pádua, onde eu nem lembrava que estive, há alguns anos. Mas minha amiga Conceição Campos, com quem viajei à Europa, me lembrou hoje da visita que fizemos ao templo e até recordou a história da língua do Santo, que ainda está intacta, mais de 780 anos após sua morte. Mesmo depois de sepultado, a santificação de Santo Antônio chamava atenção dos seus seguidores, pois na abertura do sarcófago descobriu-se que sua língua não se degenerou. Católicos acreditam ser esse um outro milagre e uma prova de que o santo nunca mentiu.  Por esse motivo, sua língua encontra-se em um relicário dourado, naquele templo. O corpo de Santo Antônio foi exumado no século 14, quando seus ossos e queixo foram para relicários próprios. Em 1981, o Papa João Paulo II autorizou uma nova exumação, quando descobriu-se que não só sua língua, mas também as cordas vocais estavam “incorruptas”, como prefere afirmar a Igreja Católica. A Basílica onde ficam seus restos mortais, atraem peregrinos católicos de todo o mundo que, além muitas rezas, pedem graças.

Confira o vídeo:

 

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos e vídeos: Fernando Batista/ Cortesia

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