Missa do Vaqueiro: do Sertão ao Cais

Lembro-me das edições iniciais da Missa do Vaqueiro, quando tive meus primeiros contatos com o mundo dos homens encourados da caatinga,  no município de Serrita, a 544 quilômetros do Recife. Isso aconteceu nos anos 70 do século passado. Naqueles tempos, não havia luz elétrica no sítio onde a celebração era realizada, e as barracas com venda de alimentos funcionavam à base da iluminação com fifós (candeeiros a querosene). Além da beleza das perneiras, dos gibões e chapéus de couro, uma das recordações que nunca se apagaram de minha mente. Uma delas foi a da presença de Luiz Gonzaga, em cima de um caminhão, cantando Asa Branca com a sua sanfona. De luz, só a da lua, que surgia por trás dos mandacarus e  dos  galhos secos dos marmeleiros. O cantor e o padre vaqueiro João Câncio criaram a missa com um duplo objetivo: preservar a cultura sertaneja e modificar alguns costumes arcaicos na região, que terminavam em mortes, como foi a do caso de Raimundo Jacó, em cuja memória foi criada a Missa, cujos rituais se transferem para o Recife, neste domingo.

Para muitos moradores do Região Metropolitana, a indumentária, os aboios e os bornais ainda são uma realidade muito distante, já que tem gente que nunca andou pelas estradas poeirentas do Sertão. Esse domingo é dia de tornar mais estreitos os laços da cultura nordestina, de aproximar o cais do Sertão. É que – espero que a chuva não atrapalhe – tem início nesse dia 16 o Projeto Tengo, Lengo, Tengo, que se prolonga até o dia 27 de agosto. E o local para recebê-lo não poderia ser outro: o Museu Cais do Sertão, cuja área externa será tomada por vaqueiros vestidos a caráter, quando ali será realizada uma versão urbana da Missa do Vaqueiro,  criada por João Câncio, já falecido, mas cuja luta em defesa da cultura sertaneja vem sendo mantido pelos seus familiares.

Cais do Sertão recebeu  Zé Pereira e Vitalina no carnaval, e nesse domingo abre as portas para os vaqueiros do Sertão.

A missa era efetuada de acordo com os costumes do sertanejo e, na hora do ofertório, por exemplo, objetos comuns à região eram colocados sob o altar. Pouco antes da comunhão, havia compartilhamento de queijo de coalho e rapaduras. No carnaval, o Secretário de Turismo, Rodrigo Novaes, que é sertanejo, já tinha trazido ao Recife os bonecos gigantes mais antigos da festa, Zé Pereira e Vitalina, cujo desembarque no Recife terminou se transformando na maior emoção do carnaval do Recife, em 2019.  Ele não tem medido esforços para divulgar, valorizar e amplificar a cultura de sua região. Eu realmente não sei, no entanto, se uma reunião de vaqueiros, junto ao mar despertará nos recifenses a mesma sensação que tem o homem urbano ao vê-los, montados em seus cavalos, no meio da caatinga. A parte musical da missa será comandada por Josildo Sá, que é sertanejo do município de Tacaratu.

De qualquer forma, não faltarão hoje cavaleiros encourados, aboios nem vozes da caatinga, na Missa do Vaqueiro no Recife. Ela acontecerá a partir das 16h, no Cais do Sertão, no Bairro do Recife. Antes, às 14h, o jornalista Vandeck Santiago lançará no local o livro  João Câncio, o Padre Vaqueiro, no mesmo local. Também é inaugurada uma exposição de fotografias, com participação dos melhores fotógrafos do Recife. Entre eles: Fred Jordão, Roberta Guimarães, Hans Von Manteuffel. O projeto Tengo, Lengo Tengo resulta de parceria entre a Secretaria de Turismo e Lazer de Pernambuco, Cepe, Fundação Padre Câncio e Janela Gestão de Projetos. E assinala os 30 anos das mortes do sacerdote (que posteriormente deixaria a batina para se casar com Helena, a mulher de sua vida e hoje responsável pela preservação de sua memória). Além dos dois eventos de hoje, o Projeto inclui debates, sessões musicais ao longo do período em que perdurar a exposição no Cais do Sertão.

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Serviço
O quê – Lançamento do livro João Câncio, o Padre Vaqueiro e Missa do Vaqueiro 
Quando – Domingo (16),  às 14h e 16h, respectivamente
Onde: Cais do Sertão, (Avenida Alfredo Lisboa, S/N, Bairro do Recife)
Acesso livre

O quê : Exposição Tengo, Lengo, Tengo
Quando: fica em cartaz até 27 de agosto
Onde: Cais do Sertão Horário: Visitação de terça a sexta-feira (9h às 17h); sábado e domingo (13h às 17h, sendo que a última entrada é às 16h30). Meia hora, no entanto, não é suficiente para percorrer toda a mostra.
Ingressos: R$ 10 e R$ 5 (meia entrada), sendo que às terças, o ingresso é gratuito Informações; 31828266

Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Hans Von Manteuffel / Cortesia 

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