Fortim do Bass: inédita relíquia de areia do século 17 fica em Porto Calvo, AL

No último sábado, fui com o Grupo Caminhadas Culturais à cidade de Porto Calvo, em Alagoas, para conhecer o Fortim do Bass, relíquia herdada do século 17 e o único construído em terra pelos flamengos ainda preservado no Brasil. Mas nem sempre foi assim. Ele estava encoberto por mato e areia e só não sumiu do mapa por ficar em área de difícil acesso, a Ilha do Guedes, à qual só se chega de barco. Levantado em 1640, o Fortim foi identificado em 2014 e passou por escavações arqueológicas a partir de 2017,  sendo entregue pelo Iphan ao público em maio de 2019.  Deve integrar um parque de visitação ecológica, a ser mantido pela Prefeitura do município, que fica a 98 quilômetros de Maceió e a 162 quilômetros do Recife.

No entanto, até o momento, a área onde fica é um descampado, embora o Forte esteja preservado, coberto com grama, para evitar erosão. Há placas indicativas, contando sua história e explicando sua feição original. Naquela época, Alagoas integrava o território da capitania de Pernambuco, e Porto Calvo só perdia em importância comercial para Olinda, sendo, portanto, alvo de disputas entre holandeses e portuguesas (como vocês devem lembrar, o território alagoano foi desmembrado da Capitania de Pernambuco por determinação de Dom João VI, como uma espécie de punição por conta da Revolução de 1817 no nosso estado). No século 17, havia ali mais imensos engenhos, que produziam produto valioso, o chamado “ouro branco” (açúcar), alvo de grandes disputas comerciais.

E o rústico porto que funcionava às margens do rio Manguaba movimentava mercadorias (principalmente açúcar), que dali saíam para outras localidades e, depois, para a Europa. Com a disputa entre portugueses e holandeses, Porto Calvo ganhou outras fortificações que não mais existem. “O interessante nesse Forte é que ele não foi preparado em caráter preventivo, para a guerra”, conta o professor Waldomiro Rodrigues, que serviu de guia para o grupo. “Foi um forte erguido em caráter emergencial, durante a guerra e talvez tenha sido por isso que foi construído em areia”, completa.  O trabalho arqueológico foi comandado pelo Professor Marcos Albuquerque, uma das maiores autoridades em pesquisas arquelógicas em fortes no Brasil. A história do Fortim do Bass, no entanto, não é tão desvendada quanto a de outras fortalezas do Nordeste.

Durante a pesquisa cartográfica realizada antes das escavações, foi localizada uma versão pouco conhecida de um mapa desenhado pelo cartógrafo holandês George Marcgrave”, informam as placas colocadas no local. O mapa se encontra atualmente na Biblioteca do Vaticano e é nele que existe a única referência conhecida ao Forte Bass.

Acredita-se que o Bass tenha sido usado como acampamento do Almirante holandês Jan Cornelisz Lichthart. O fortim possui 473 metros quadrados de muralhas de terra.  Tem quatro meio baluartes e é circundado por um fosso. O sítio onde ele fica faz parte hoje do Patrimônio Cultural  protegido pela Constituição Brasileira e pela Lei 3.924 /61. Portanto, a retirada de qualquer material ou remoção de terra do local constitui crime, sujeito à pena de multa e detenção. O Iphan prometeu recursos de R$ 400 mil para dotar o local com infra estrutura turística, inclusive com construção de mirante. Nas placas indicativas, há mapas explicando, para o turista entender, onde ficavam: a praça de armas, o parapeito (anteparo construído para proteger os soldados do inimigo), o fosso (para dificultar acesso dos inimigos às muralhas); e o meio baluarte (ângulo saliente de fortificação, com ângulo em apenas um dos lados).  Quem quiser, pois, conhecer a história, já pode incluir o Fortim do Bass no roteiro. Há sempre um barquinho à espera, no chamado Porto das Barcaças. Mas atenção: barquinho rústico, com capacidade para oito pessoas e… sem salva-vidas. Pura aventura.

Veja no vídeo, como é a travessia pelo Rio Manguaba, para chegar ao Fortim do Bass:

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Texto, foto e vídeo: Letícia Lins / #OxeRecife

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