Lembram dele? O caso único do prédio que teve duas fachadas simultâneas

Andar pelas ruas do Recife, sem a pressa do meio de semana e com tempo para contemplar a arquitetura da cidade, sempre serve para nos ensinar alguma coisa. Ou a desenvolver um novo olhar sobre o lugar onde moramos. A última edição das Caminhadas Domingueiras Olhe pelo Recife foi dedicada ao estilo eclético, com saída do Bairro do Recife e final no de Santo Antônio, depois de passagem pelo da Boa Vista. No sábado (15/6) acontece outra, e o #OxeRecife nem terminou o estoque guardado no “baú” da última,  que ocorreu em 19 de maio.

E aí saltam algumas informações confortadoras: observar que mesmo com o abandono de alguns edifícios, no Bairro do Recife os exemplares do estilo  eclético estão preservados. O caso mais curioso, no entanto, é o Edifício Luciano Costa, que fica na esquina da Marquês de Olinda com a Rua Dona Maria César que, durante longos anos, teve duas fachadas: a eclética (original, datada de 1910) e uma outra, modernista ( de 1959, com malha de concreto, vigas e combogós encobrindo a primeira). A façanha da segunda foi do arquiteto português Delfim Amorim (1917-1972), contratado pelos proprietários do prédio, no século passado, para lhe dar um “aspecto moderno”, que se sobrepujasse à decadência das demais edificações ecléticas do bairro, então esquecido e mais referenciado naquela época pela boemia e meretrício do que pela sua arquitetura.

Ou seja, os  prédios antigos estavam associados àquelas duas atividades. Nesse caso, uma mudança na fachada seria uma forma de desvincular o Luciano Costa daquela triste realidade. O arquiteto, então, apelou para uma solução engenhosa. Ciente da importância do estilo do prédio, atendeu ao cliente sem, no entanto, destruir a fachada original, por sinal belíssima. De acordo com o guia da caminhada,  urbanista  Francisco Cunha, Delfim teria se recusado a destruir a fachada anterior justificando que “um dia essa fachada eclética será valorizada”. E foi. Ou melhor, está sendo. Pena que com a imagem tão poluída por um novelo de fios, o que não acontecia na anterior conforme se observa nas duas imagens acima, a recente captada pelo #OxeRecife. Na década de 1990, com a revalorização do Bairro do Recife, os proprietários do Luciano Costa resolveram devolver-lhe a fachada original. E solicitaram orientação a órgãos públicos do Recife.

A polêmica estava feita com gente a favor da manutenção da fachada modernista (já “integrada” à paisagem dali) e outros a favor da recuperação da antiga. Até porque  a solução encontrada por Delfim era inédita na cidade, e quem sabe no Brasil. Afinal, não é comum um prédio com duas fachadas intactas.  Depois de muito vai e vem e tudo de quanto era burocracia, em 2006 o Iphan autorizou a retirada do chamado “véu de noiva” (era assim que chamavam a fachada de combogós) e a manutenção da arquitetura original. A polêmica preservacionista em torno das duas fachadas do prédio – a eclética e a modernista – gerou até trabalhos acadêmicos, como o da arquiteta Renata Cabral: “São raros os momentos, na história das políticas de preservação do patrimônio no Brasil, em que se vê a dimensão de um conflito – gerado pela atribuição de valores e um bem cultural – alcançar repercussão significativa, mobilizando diversos agentes. O caso do Edifício Luciano Costa, no Recife é um exemplar dessa natureza”. Um caso incomum, com certeza. Vocês lembram de algum edifício que por acaso tenha mantido simultaneamente duas fachadas intactas? Eu não lembro de nenhum.

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Letícia Lins e Internet (modelo modernista)

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