Santo Antônio: casamenteiro, soldado, tenente e vereador cassado

Nada como o Dia 12 de junho, dedicado aos namorados, para lembrar deliciosas histórias do padroeiro dos “pombinhos”, Santo Antônio, que ainda hoje recebe fitinhas, cartas e simpatias com pedidos para que arranje uma cara-metade para os solitários. Tem gente que fica revoltada porque não teve o apelo atendido. E joga a imagem do santo no fundo de um poço, na rua, esconde no guarda roupa, ou o coloca de frente para a parede. A tradição casamenteira permanece. Nas fotos temos uma procissão a ele dedicada, na localidade de Pirauá, no Município de Macaparana, localizado a 118 quilômetros do Recife. Ela me foi enviada pelo amigo e Deputado Antônio Moraes (PP), que frequenta o cortejo religioso desde os tempos de menino, quando acompanhava o pai, então um dos organizadores da procissão. A curiosidade: no lugarejo, tem a Pedra de Santo Antônio, sob a qual passam as mulheres que têm  o sonho de casar.  Quem não se arrisca, não arranja marido antes do ano seguinte, até passar de novo sob o rochedo.

Quando criança, ouvia muito a história de uma tia avó que vivia implorando a Santo Antônio que lhe enviasse um marido. Naquela época, uma mulher de 30, se solteira, já era considerada “vitalina” ou de ter ficado para titia, pois o matrimônio era o destino reservado para as chamadas “moças de família”. Depois de muitas flores para a imagem do santo, velas acesas e orações, ela perdeu a paciência. Achou que ele não ia atender-lhe o pedido.  Então, pegou a imagem e atirou pela janela. Naquele momento, passava um homem pela rua, que foi atingido pelo “descarte” e desmaiou. Preocupada, ele foi socorrê-lo. Resultado: quando a vítima acordou e a viu, foi amor à primeira vista. Casaram e foram felizes para sempre. Ou seja, mesmo descartado e injuriado, Santo Antônio ainda resolveu a vida da “solteirona” e a tirou do caritó, como era então chamado o estado das moças que não conseguiam arranjar um marido.

Outro caso bom do santo  é histórico. E nada tem a ver com namoros, maridos, paixões, mas sim com Igarassu e o Rei de Portugal, conforme relatam documentos da época. É que naquela antiga cidade –  localizada na Região Metropolitana do Recife – Santo Antônio tinha patente de soldado e, como tal, ganhava soldo. Em 30 de abril de 1717, ordem régia de Lisboa promoveu o santo a tenente, “com vencimento de 27 tostões por mês, soldo considerado justo para um soldado tão glorioso”. O comunicado foi enviado ao Provedor de Fazenda da Capitania de Pernambuco, referindo-se uma petição que havia sido encaminhada pela “Consultora do Conselho Ultramarino”. Lembro-me que posteriormente o santo foi transformado em vereador na Câmara Municipal de Igarassu, que fica a 26 quilômetros do Recife. Mas terminou… cassado.

É que m 2008, por pressão do Ministério Público, o “político” foi destituído do cargo assim como o seu soldo, que era repassado a instituições de caridade. Na ocasião, os vereadores – alegando respeito à tradição (mas quem sabe temendo um castigo celeste) – decidiram manter o “salário” de Santo Antônio, com contribuições do próprio bolso. “Não vamos revogar uma tradição que foi criada pelo próprio rei de Portugal”, alegou o então Presidente da Casa, Waldemir Nunes, em entrevista a essa repórter naquele ano. Hoje telefonei à tarde para a Câmara dos Vereadores, em Igarassu, para atualizar a história, saber como está a situação “jurídica” do “vereador”,  se ele ainda tem o cargo ou se permanece “cassado”. Mas a casa estava vazia, e o vigilante que me atendeu limitou-se a dizer: “Parece que tem uma lenda de que ele virou vereador perpétuo, mas  não sei se ainda tem salário”. Viva Santo Antônio!

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Leôncio Francisco / Assessoria do Deputado Antônio Moraes/ Cortesia

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