Chalé do Prata começa a desabar

É impressionante como a burocracia, ou a inércia dos nossos gestores, prejudica a preservação do patrimônio público e eleva a previsão de despesas, quando o assunto é manutenção ou restauração dos nossos prédios históricos. Refiro-me ao lindo Chalé do Prata, que fica no interior do Parque Estadual de Dois Irmãos, na Zona Norte do Recife. Lá estive no último sábado, após trilha pela Mata Atlântica, com o Grupo MeninXs na Rua, em seu roteiro O Verde no Recife. Em 2017, visitara o lugar, daquela vez com o Grupo Caminhadas Domingueiras, cujo destino final era o Açude do Prata e, claro, o seu solar já em ruínas. Desde então, a situação só fez piorar. Do jeito que a coisa vai com a edificação sem telhado e as paredes caindo, daqui a pouco não resta mais nada. Só falta mesmo desabar.

Em 11 de abril de 2017, após visitar o Pedi, fui informada que as obras de restauração do chalé estavam orçadas em R$ 1,6 milhão e que começariam em dois meses. Não começaram. Em agosto daquele mesmo ano, o leitor Messias Oliveira me cobrava informação sobre o andamento do projeto de restauração. “Por favor, não deixe esse patrimônio acabar”, apelava ele, que mora no bucólico bairro de Dois Irmãos desde criança. Procurei o então gestor do Pedi, que me informou que a restauração ia sair em breve. Que alguns projetos executivos complementares e a documentação necessária estavam em andamento, inclusive o TR – termo de referência de orçamento. Na época, a necessidade de investimento já havia subido para R$ 1,9 milhão. Com o imóvel ainda mais detonado, é possível que essa verba já não seja suficiente.

O chalé fica ao lado do Açude do Prata, que é uma área de visitação restrita, dentro do Pedi. O acesso só é permitido com guias do próprio parque, como ocorreu no último sábado. Por esse motivo, muitas pessoas não conhecem a edificação, uma pérola arquitetônica – infelizmente em ruínas – no meio da mata.  O sobrado foi erguido por ingleses que, no século 19 trabalhavam na implantação da Drainage Company Limited, criada em 1873. Foi dali, a partir do Açude do Prata, que o Recife ganhou as primeiras tubulações para levar água a chafarizes, localizados nos bairros da Boa Vista, Santo Antônio e São José.  Como vocês podem observar na foto, o solar é um belo exemplar da arquitetura do século 19, e pela sua importância na história da evolução urbana da cidade, bem que poderia sediar, quem sabe, um Museu das Águas. No projeto original de restauração, no entanto, ele serviria para acomodar o setor administrativo do Pedi, onde funciona, também, o zoológico do Recife. O chalé fica em um terreno de 3.844 metros quadrados e sua área construída é de 232, 46 metros quadrados (incluindo o que já desabou).

Em nota enviada ao #OxeRecife, a Secretaria Estadual do Meio Ambiente e Sustentabilidade informa que “ está em andamento a contratação de empresa especializada para atualizar o projeto base e elaborar os projetos executivos e complementares da obra”. Ou seja, mais dinheiro a ser consumido, pelo que deixou de ser feito. “O casarão, que é um patrimônio histórico tombado, está inserido numa área de preservação ambiental de uso restrito: a Unidade de Conservação Estadual Parque Dois Irmãos. Vale ressaltar também que o chalé fica à frente de um importante manancial usado para captação e abastecimento de água da população do Recife”, diz a Semas. Esse, aliás, seria o motivo pelo qual “foi observada a necessidade de revisão do projeto de forma a garantir que as obras causem o menor impacto ambiental, estude-se a viabilidade de implantação de sistemas construtivos mais sustentáveis e, ao mesmo tempo, seja possível fazer o resgate desse imóvel histórico avaliando inclusive os usos dele de maneira compatível com os anseios da sociedade e com o plano de manejo na Unidade de Conservação”. Aí, pergunto: só descobriram isso agora? #OxeRecife…

Vejam, na galeria, como está a situação do histórico Chalé do Prata:

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Texto e fotos: Letícia Lins / #OxeRecife

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