Resgate histórico: primeiro deputado negro do Brasil era pernambucano

Aproveitando o transcurso, hoje, do 13 de maio, peço que me cedam um tempinho para falar de história. E para reclamar de nossos livros que, no meu tempo, só nos ensinavam essa disciplina pela ótica dos vencedores, dos brancos, dos colonizadores. Mas nunca é tarde para fazer alguns resgates daqueles que, mesmo esquecidos, foram pioneiros. E um desses é Manoel da Motta Monteiro Lopes (1867-1910), primeiro deputado negro da República. Eleito em 1 909, enfrentou uma avalanche de protestos pela sua cor.  Ainda sob a herança da cultura escravocrata, a sociedade branca não aceitava um homem negro entre os seus representantes.  Ele comeu o pão que o diabo amassou por conta do preconceito. Mas contou com a luta do povo, para que assumisse o cargo. Para os que não sabem, o primeiro deputado negro do Brasil nasceu em Pernambuco. Mais precisamente no Recife.

Mas morreu no Rio de Janeiro – então capital da República –  no exercício do seu mandato. Ele se definia “republicano, socialista, não revolucionário, opositor das políticas estaduais e defensor dos trabalhadores”. Nesse aspecto, segundo os pesquisadores, realmente utilizou o seu mandato para agir em defesa de direitos do operariado, então ainda não consolidados no Brasil. Formou-se pela Faculdade de Direito do Recife (em 1889), tendo trabalhado como delegado no Norte do país, mudando-se posteriormente para o Rio de Janeiro, onde – ao eleger-se deputado – ganhou uma mobilização popular em defesa de sua posse, que enfrentava resistência da aristocracia branca e higienista.  Era filho de africanos, mas não se sabe se os pais chegaram a ser escravos. O que se sabe é que eles viam na educação a única forma de alcançar ascensão social, e todos os filhos concluíram seus estudos, o que também não era tão comum naquela época.

Monteiro Lopes virou alvo de chacota nos periódicos do início do século, segundo relata a historiadora Carolina Vianna Dantas, que fez uma minuciosa pesquisa sobre o personagem. “Pois deixe que te diga. Fiquei surpreso da pequena votação que tive. Confesso que esperava mais. Quando apresentei minha candidatura havia um ponto negro no horizonte”, ironiza  diálogo fictício publicado em O Século. De outra vez, ao transitar em uma rua com um advogado, bem “mais claro”, a dupla passou a ser chamada de “reclame de alcatrão e jataí”. Até as marchinhas de carnaval faziam troça com o tom da pele do deputado: “Monteiro Lopi/ De colete branco/ Tomou a barca, foi para Pretopi”. Alguns estudantes que frequentavam os mesmos restaurantes do então deputado, o chamavam de “Tinteiro Lopes.” Também houve quem dissesse que, ao chegar no poder legislativo, sua função seria abrir as janelas da sala de sessões “para clarear o ambiente”. Não deve ter sido fácil enfrentar essa avalanche movida por uma sociedade extremamente racista e preconceituosa.

História digna de registro, e que achei bastante curiosa, também  relatada por Carolina, cuja pesquisa pode ser acessada na Internet e encontra-se na Biblioteca Nacional. “Em outra ocasião, Monteiro Lopes e a esposa foram impedidos de entrar em um bar que ficava dentro do Pavilhão de Regatas, no bairro do Botafogo, pelo próprio dono do estabelecimento. De dentro do bar, uma mulher branca chamada Maria de Bragança e Melo (frequentadora da Roda Literária da Colombo e fundadora dos periódicos A Voz do Povo e A Garra) –viu a cena e se dirigiu imediatamente para os lados do bairro da Saúde. Em pouco tempo, retornou trazendo, dentro de vários veículos,  robustos estivadores, todos homens de cor preta, cerca de trinta, que invadem logo o bar, sem que seu arrendatário tivesse tempo de articular uma só palavra de protesto”. Ou seja, uma cena cinematográfica e contestadora. Taí,  gostei de Monteiro Lopes, como tenho a maior admiração por João Cândido (1880-1969), que liderou a histórica Revolta da Chibata (em 1910). E fiquei curiosa com Maria de Bragança e Melo.  Devia ser uma mulher arretada! Se for “futucar”, sua vida – como a de Monteiro Lopes –  ela, como ele, deve render roteiro para bons filmes.

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Foto: Internet

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