A arte “Canabarro” de Lorane Barreto

Desenhista, pintora, ilustradora, Lorane Barreto  é, também, uma grande “garimpeira”. E das boas. Daquelas que vê arte em tudo, até em um caquinho de porcelana que acha no meio da rua. Durante longo tempo, ela dedicou-se à produção do que chama de reflexórios e tombados, produzindo belas e harmoniosa peças, em que reunia artigos que achava em demolições – como portas, janelas, grades de ferro – com santinhos quebrados, terços, asas de anjos, pedaços de louça. Os trabalhos não eram planejados. Ela criava, à medida que ia encontrando descartes que logo transformava em arte. “Gosto de tudo que está quebrado, que ninguém quer”, comenta, divertida, em seu ateliê, no bairro de Apipucos.  Seus trabalhos, belíssimos e em diversas dimensões – estão espalhados hoje por várias partes do Brasil.

Mas, por enquanto, ela reduziu o ritmo para confecção daquelas peças, muitas das quais com montagem trabalhosas, principalmente quando em grandes dimensões. Esse, no entanto, não foi o motivo da pausa. É que, inquieta, a artista vinha tentando desenvolver um verniz que substituísse o do tipo acrílico utilizado para fixar a fuligem de vela aplicada sobre papel ou cerâmica, com a qual também passou a  trabalhar.  Para obter o que queria, tentou o sumo da banana verde, da castanha de caju, da macaxeira. Tudo em vão. Um dia, decidiu apelar para o açúcar, de presença tão forte no cotidiano dos nordestinos, e principalmente dos pernambucanos. Então aplicou algumas pinceladas de açúcar diluído em água em uma cumbuca de barro. E a levou ao fogão.

Para sua surpresa, o calor do fogo transformou o açúcar na cor negra, fixando-a na cerâmica. Ela lavou o pote, tentou raspar a “tinta” com uma faca, mas ela se manteve inalterada.  Lorane passou a pesquisar sobre o assunto. Não encontrou registro sobre a técnica. Decidiu batizá-la de Canabarro, e passou a utilizá-la em seus trabalhos, usando peças artesanais barro como suporte. Resultado: as peças caíram no gosto do público. Em exposição recente, ela teve que renovar várias vezes o estoque, devido à grande demanda. E, a exemplo das peças superdimensionadas que criava com seus reflexórios e tombados, o Canabarro já se transformou em painel de restaurante (Entre Amigos, Boa Viagem) com 13 metros de extensão.

No domingo, Lorane vai estar – na qualidade de convidada – no Mercado Capitão, que acontece na Rua do Lima. Levará peças de barro que garimpa em feiras e entre artesãos: alguidares, pontes, cumbucas de água para passarinho, jarrinhos, formigueiros, cuscuzeiras. Decoradas com a técnica Canabarro, elas são sobrepostas, coladas, ou invertidas (foto ao lado). E ganham novos sentidos. Transformam-se em pinhas, suportes para jarro, castiçais, pratos para parede, esculturas. Até as telhas de beiradas podem ganhar elementos decorativos com o Canabarro. Há, também, colares. As peças custam a partir de R$ 50. E, com certeza, empresam muita graça a ambientes domésticos e humanizam escritórios, lojas, empresas.

Lorane não se preocupa em produzir as próprias peças. Prefere usar cerâmicas populares, para aplicar-lhes a técnica Canabarro.  Afinal, elas já existem, carregadas de ancestralidade e da sabedoria popular. “Possuem um design incrível”, diz. Enquanto converso com a artista, em seu ateliê, ela vai compondo novas peças com as cumbucas, potes, alguidares de cerâmica que garimpa nas feiras. “Eu nunca saio para procurar uma peça definida. Ao contrário, vou achando, compro, e aqui vou compondo os trabalhos”, diz enquanto manipula uma cumbuca utilizada para colocar água para passarinho, na qual fixa três jarrinhos. Em pouco tempo, as quatro peças viram uma só: suporte para jarro ou para castiçal. Todas, claro, com a marca do açúcar transformando em tinta e em arte.

Veja, na galeria abaixo, alguns trabalhos da artista:

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Serviço:
O quê:
Mercado Capitão
Convidada:
Lorane Barreto, com exposição Canabarro
Outros participantes: Pepita Garimpo, Bazar das Plantas, Toko Design Utilitários, Alma Design Brasileiro, Heitor Potes, Gegê Pedrosa, Danielle Porcino, Arenal, Brechó de Sal, Firulinhas, Okira, Brod, Doce Natureza, Geleias Vila Maria, , G Zacainer, Du Francês, Curta em Casa, La Glace, Box e Bocadinhos do Capitão, Dona Jardineira, Donaterra Agroecológicos e Ziriguidum
Quando: Domingo (5 de maio)
Horário: 9h às 19h
Onde: Rua do Lima, 124, Santo Amaro

Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Gustavo Maia e Divulgação

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