Tejucupapo revive batalha do século 17

Mulheres valentes ontem e hoje. No passado, liderada por Maria Camarão, Maria Quitéria, Maria Clara e Joaquina, a pequena comunidade de Tejucupapo conseguiu derrotar tropas holandesas que ocuparam a área, em busca de comida (principalmente farinha de mandioca e cajus). Covardemente, os flamengos escolheram o domingo, porque sabiam que os maridos estariam ausentes do povoado, já que viajavam a cavalo para vender seus produtos na feira. O dia era 24 de abril de 1646, e além de armas pouco convencionais – como paus e pedras –  as mulheres usaram uma estratégia que os invasores jamais imaginariam enfrentar: atiraram tachos de água fervente com pimenta em seus olhos. A batalha terminou com 300 mortos. Mas, mesmo assim, venceram a “guerra”.

Em 1993, sem recursos nem ajuda oficial, moradoras do vilarejo de Tejucupapo, localizado em Goiana – a 60 quilômetros do Recife – decidiram resgatar a história, e passaram a encenar A Batalha das Heroínas de Tejucupapo, como forma de manter acesa a lembrança de tão importante fato histórico não só para a comunidade, como para Pernambuco e para o Brasil. A iniciativa das mulheres, em preservar a memória do lugar já rendeu até trabalhos acadêmicos, embora a história do passado não tenha o merecido destaque nos livros didáticos. Em 2019, o grupo de artistas amadores ganhou reforço, vindo de uma grande corporação: com unidade  industrial em Goiana, Fiat Chrysler Automobiles (FCA) está oferecendo apoio cultural à montagem da encenação dessa história. A apresentação acontece no domingo (28), a partir das 14h30, na Fazenda Megaó, em Tejucupapo. Goiana é pertinho, e fácil de ir até lá.

A encenação que reconstitui a batalha é idealizada e dirigida por Luzia Maria da Silva. “Tive um problema de saúde e disse a Deus que contaria a história da minha cidade se saísse do hospital”, relata. Mulher de palavra e sem temer desafios, cumpriu a promessa. Toda produção é realizada pela boa vontade da comunidade e já foi vista por mais de 180 mil pessoas desde que começou a ser encenada. Este ano, contará com 160 atores amadores, além de 20 pessoas no apoio e 20 seguranças. A Batalha das Heroínas de Tejucupapo já teve desdobramentos como livro, curta metragem e vários trabalhos acadêmicos. “O apoio é necessário para viabilizar a encenação. Todas as pessoas que participam são voluntárias, que vêm porque amam a história e a nossa cidade”, diz Luzia.

Maria Camarão, Maria Quitéria, Maria Clara e Maria Joaquina são vividas pela pedagoga Dayse Alves, pelas domésticas Claudemir Dias e Laurenice Laurentino, e pela aposentada Aurenita Bezerra, respectivamente. Os relatos históricos falam de três ataques à comunidade de Tejucupapo, executados pelos holandeses em busca de comida e outros bens. Além de criar trincheiras para o combate, as mulheres usaram paus, pedras, água fervente e pimenta como armas. E viva o protagonismo feminino de ontem e de hoje. O espetáculo, que normalmente era à noite, acontece a partir das 14h. No Recife, a comunidade de Casa Forte se mobilizou para revitalizar o Largo do Holandês, onde no passado costumava aparecer o fantasma de um oficial flamengo, que teria morrido em batalha travada na localidade.

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Foto: Divulgação/ Fiat Chrysler Automobiles

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