Hotel do Parque em livro sobre Root

Com o andar térreo totalmente descaracterizado – por conta de uma loja de eletrodomésticos e sem a devida atenção dos órgãos encarregados da conservação do nosso patrimônio – o Hotel do Parque, vejam só, aparece na biografia da jornalista americana  Martha Root (1872-1939, foto ao lado), que visitou o Recife em 1919. Tomei conhecimento da informação por intermédio de Gabriel Marques, mineiro residente em Salvador, que está escrevendo um livro sobre a repórter, viajante e instrutora da fé Bahá’í que, no início do século passado, empreendeu viagem a várias cidades do Brasil e a outros países da América do Sul. Naquele mesmo ano, foi também a Cuba. Um feito incomum, para as mulheres de sua época.

Ele pede minha autorização para usar uma fotografia do Hotel do Parque, veiculada aqui no #OxeRecife. Autorização dada, claro. Quem sabe, uma informação a mais sobre aquele edifício seja uma semente que motive alguém a restaurá-lo, como foi feito com o icônico Hotel Central, também no mesmo bairro da Boa Vista, no Recife Fiquei pensando como não deve ser rica e curiosa a história daquele edifício que foi construído junto ao Teatro do Parque, e no qual eram hospedadas as  então famosas companhias de teatro (nacionais ou internacionais) que se apresentassem naquela graciosa casa de espetáculos que, infelizmente, está fechada há quase uma década.  Gabriel conta que a jornalista empreendeu viagem ao Brasil com três objetivos. Fazer reportagens sobre a causa Bahá’ í, sobre o esperanto como linguagem universal e ainda sobre comércio internacional. Pelo visto, uma repórter bem versátil e uma dedicada propagadora de sua fé.

Gabriel (foto ao lado) está escrevendo o livro Martha Root – Uma  Breve História de Sua Vida e Viagens , sobre a jornalista assinalando a passagem de um século de sua visita ao país. Inicialmente, a publicação deve ter circulação limitada à Comunidade Bahá´í do Brasil, à qual o mineiro pertence. “Já são quase cem anos da visita dela, que chegou ao Recife a bordo do navio Alban”, que teria ficado longe do porto por conta de um “surto de febre amarela que havia na cidade”. E também devido a “uma revolução”, afirma ele, provavelmente se referindo à ebulição operária que tomava conta do Recife nos anos 19 do século passado, quando funcionários da Pernambuco Tramways ( então distribuidora de energia) chegaram a ocupar as instalações e o gasômetro da empresa, exigindo maiores salários.

Martha não ficou no navio. Ao contrário de muitos passageiros, desembarcou, rumou para o Hotel do Parque e lá se hospedou. “No hotel, ela se encontra e conversa com uma comerciante americana radicada no Brasil”, diz Gabriel. Do Recife, a jornalista viajou a Maceió e Salvador. Nas visitas, teria se defrontado, mais uma vez com doenças que eram bem comuns àquela época e para as quais ainda não existia vacina: febre amarela e varíola.  No país, Martha esteve – no mesmo ano – em Belém, Fortaleza, Rio de Janeiro e São Paulo.  Depois, a jornalista viajaria pelo Uruguai, Argentina, Chile, Panamá, Cuba e regressa, posteriormente, aos Estados Unidos. Detalhe: de Mendonza (na Argentina) a Los Andes (no Chile), a jornalista fez o percurso no lombo de uma mula. Marta viajava muito, para propagar a sua fé. Esteve em vários países da Europa. Também visitou Índia, Birmânia, Japão, Egito. Visitava chefes de estado e seria responsável por transformar a Rainha Maria, da Romênia, na primeira monarca a aceitar aquela fé, da qual a jornalista  foi posteriormente transformada em Mão da Causa, expressão atribuída àquelas pessoas com função de proteger e propagar aquela religião em escala internacional. No caso de Martha, no entanto, a homenagem foi póstuma.

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Letícia Lins e Divulgação

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5 comentários

  1. Parabéns ao OxeRecife e a Letícia Lins. Ótima reportagem. A história de Martha Root é extraordinária. É um exemplo da emancipação das mulheres. Movida por uma Fé inabalável realizou grandes feitos sempre inspirados nos ensinamentos de Bahá’u’lláh, fundador da Fé Bahá’í.

  2. Martha Root foi pioneira em todos os sentidos e tem imensurável importância na divulgação de uma mensagem curadora para a humanidade: os ensinamentos da Fé Baha’i. Espero que o livro auxilie, também, para que se preserve as memórias desse lugar tão importante na história do Brasil: Recife. Parabéns a todos!

  3. Letícia, todo o ambiente de seu blog exala um vibrante apelo à preservação da natureza, da arquitetura, da cultura da cidade – na verdade, um brado a favor da História e do conhecimento, das raízes culturais do Estado e do país.
    O seu destaque para a passagem da também jornalista, Martha Root, por Recife e, em especial, pelo Hotel do Parque em 1919, está retratado com excelencia! E sua introdução à vida desta tão interessante jornalista e dignitária bahá’í é, sem dúvida, um convite à curiosidade e à pesquisa sobre esta destacada personagem.
    Receba meu abraço!

  4. Mi amigo Gabriel Marques lo felicito sinceramente por su nuevo trabajo,esta vez sobre nuestra querida Marta Root,Instructora Incansable de la Causa Bahai,del siglo XX.Estaremos con ansiedad aquí en Chile esperando la publicación de su libro, primero en portugués,lógicamente para que luego pueda ser traducido al español.

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