“Três Faces”, do Irã, é imperdível

Diretor aclamado, com filmes que mexem fundo com a alma dos espectadores – como O Espelho, O Balão Branco e O Círculo – mas que também expõem a cultura conservadora, as mazelas sociais, dramas familiares e os preconceitos religiosos do Irã, Jafar Panahi nos presenteia com Três Faces, filme no qual os dois protagonistas interpretam eles mesmos. No caso, um diretor de cinema (Panahi) e a atriz (Behnaz Jafari, foto). Ambos empreendem uma viagem, para saber se um vídeo do próprio enforcamento – enviado por uma moça do interior, que quer ser atriz- é real ou fake. O sonho da pretensa suicida de ser atriz conta com a oposição ferrenha de toda a família.

O filme está em cartaz no Cinema do Museu, da Fundação Joaquim Nabuco, em Casa Forte, em sessão que tem início às 14h30m. De acordo com os programadores, permanecerá em cartaz ainda por essa semana. Recomendo. Para quem ficou no Recife no feriadão, é uma boa pedida. Para os que viajaram, é bom programar para a próxima semana. O filme é dez. Não tem a carga emocional do recente  Canarfaum (da libanesa Nadini Labaki), mas prende a atenção da plateia do começo ao fim. Isso por conta das imagens que chegam à atriz Behnaz Jafari  via celular.  Intrigada – o vídeo seria verdadeiro ou uma fraude? – a artista pede ao diretor que a acompanhe em viagem de carro por estradas poeirentas e desertas, para localizar a menina.

E a viagem é, também, uma “viagem” para quem está assistindo. O #OxeRecife não vai relatar o desfecho  porque, assim, o filme perde a graça. O suspense, no entanto, é apenas um dos elementos que fazem desse, um filme  genial. Mais uma vez, Panahi mostra com muito realismo os costumes arcaicos do seu país, as perseguições contra quem não se enquadra no modelo conservador imposto pelas leis sociais e religiosas retrógadas do Irã. As arraigadas crenças e superstições do interior são radiografadas com muita delicadeza, incluindo aquela em que um velho camponês entrega um pequeno pacote à atriz com um pedaço do corpo humano de um menino. Segundo a crença, aquele pedaço deve ser encaminhado a um cidadão de bem, viril, e de preferência economicamente bem situado. Isso porque quem o receber, terá o poder simbólico de definir o futuro da criança. Ou seja, se for um homem  viril, de sucesso, e bem sucedido economicamente, a criança também o será um dia.

Três Faces denuncia a situação de desespero que invade as mentes e vidas daqueles que ousam desafiar as regras nem sempre justas dos costumes do Irã,  seja enfrentando a religião, o histerismo, a quase loucura, o preconceito de vizinhos de aldeia, a brutalidade de membros da família. Mas o filme acusa também o lado fraterno e hospitaleiro daquelas pessoas do interior, que até lembram os costumes do homem da caatinga nordestina, diante de desconhecidos forasteiros. Não percam Três Faces. Jafar Panahi, para os que não lembram, é aquele cineasta que foi condenado pelas leis do seu país a seis anos de prisão, tendo sido proibido de filmar por duas décadas, pena contra a qual ele tem se rebelado, porque continua trabalhando. Durante a prisão domiciliar, ele filmou Um Não Filme, denunciando a própria situação legal (assisti no Cine Cult/ Tv por assinatura). Durante a pena, ele dirigiu outras produções, o que o levaram a novas condenações. Diferente de filmes como os americanos – com superproduções, tecnologia, investimentos milionários, carros explodindo, armas sofisticadas  – os filmes iranianos normalmente têm baixo orçamento, não utilizam efeitos especiais, mas seus diretores sabem, como ninguém, mexer com a alma das pessoas. E isso é o que importa.

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Foto: Divulgação

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