Grupos de caminhadas pelas ruas do Recife só fazem crescer.

Zona Norte em movimento no domingo

A Zona Norte esteve movimentada este final de semana. Aliás, no domingo. Primeiro foi a turma do Correndo em Trilhas, que reuniu-se na Praça Faria Neves – aquela que fica em Dois Irmãos – de onde o pessoal saiu correndo, passando por Apipucos, Monteiro, Casa Amarela e terminando no Parque da Jaqueira. Já outra turma (essa de andar, contemplar e aprender), o Caminhadas Culturais, às oito em ponto estava agrupada na Praça de Casa Forte, para fazer um “tour” pelo Poço da Panela, Monteiro, Apipucos. O comando foi de Stenberg Lima que passou gravação dos áudios ao vivo para o WhatsApp dos caminhantes.

Com mais de cem pessoas, o Caminhadas Culturais fez um percurso por terras históricas em que, no século 17, funcionavam os engenhos de Anna Paes. O ponto de partida foi a Praça de Casa Forte, local em que, no dia 17 de agosto de 1645, tropas luso brasileiras tomaram a casa grande do engenho de  Anna, para libertar mulheres que foram tomadas como escudos humanos pelos holandeses ali refugiados. A luta terminou com 250 infantes e 200 índios tapuias prisioneiros (aliados dos holandeses).  Essa, inclusive, foi a origem do nome do bairro, Casa Forte. Na praça, fica o primeiro jardim público projetado por Roberto Burle Marx (1909-1994), considerado um dos maiores paisagistas do século 20 no mundo. O percurso incluiu, ainda, o bucólico bairro do Poço da Panela, que preserva casarões do século 18, quando a aristocracia começou a instalar ali suas residências de veraneio, atraídos por banho de rio, já que as águas do Capibaribe eram tidas como excelentes para a saúde. Que diferença de hoje, quando o nosso tão lindo rio virou um esgoto a céu aberto.

O Capibaribe era recomendado por médicos como “milagroso” para a saúde, o que motivou a povoação do Poço da Panela

O grupo passou por ruas como a do Chacon (onde morou Ariano Suassuna), a Real do Poço, a dos Arcos e esteve, também, no pátio da Igreja de Nossa Senhora da Saúde, ao lado da qual viveu o abolicionista José Mariano com sua mulher, Olegarina. Contam que o casal utilizava o rio para libertar escravos para Fortaleza, onde a abolição começou antes. Os escravos desciam o Capibaribe de barco e iam até o Porto do Recife, onde embarcavam para a liberdade. A construção original em que residiu o casal não mais existe, porém o imóvel atual tem outro papel histórico: foi ali onde o educador Paulo Freire formou sua primeira turma, com o método de alfabetização que depois o projetaria internacionalmente. De lá, o Grupo deu uma passada no Jardim Secreto ,  assim chamado por ter sido uma área esquecida e degradada, às margens do Rio Capibaribe. Na verdade, um terreno de 3 mil metros quadrados, que vivia tomado pelo lixo e que foi transformada em área de lazer pela comunidade. Hoje abriga bancos, mesinhas, horta, fruteiras e plantas decorativas. O Jardim Secreto foi, também, o primeiro local a receber um transplante urbano.

O próximo passo foi a Fundação Joaquim Nabuco, na qual funciona o Museu do Homem do Nordeste, antigo Museu do Açúcar, que traz um resumo do que é  o Nordeste e sua gente. O Museu, que no passado era voltado para a formação da sociedade açucareira, hoje tenta fazer um mosaico de um outra sociedade que se formou na região com a diversificação de sua economia, a  partir das três últimas décadas do século passado. Isso sem deixar de lado o seu rico acervo, que vai dos instrumentos de tortura dos escravos e de artefatos indígenas às porcelanas inglesas usadas pela aristocracia pernambucana, principalmente entre os séculos 17 e 19. O grupo terminou a caminhada na Fundação Gilberto Freyre, em Apipucos. Mas infelizmente a casa museu (onde o autor de Casa Grande e Senzala criou a maior parte de sua obra) estava fechada.

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Hans Von Manteuffel/ Caminhadas Culturais/ Cortesia

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