Caminhadas Culturais: “Abelardar”

Realizada no Recife entre os meses de setembro e novembro de 2018, a Casa Cor esqueceu uma joia nos jardins do amplo casarão onde ocorreu o evento, na Avenida Dezessete de Agosto: uma escultura de Abelardo da Hora (1924-2014). A peça (foto abaixo) está há um tempão ali, sem que tenha sido feita remoção para local adequado e  onde a obra de arte tenha maior visibilidade. O descaso com a herança do ceramista, gravurista, pintor, escultor, não é de hoje em Pernambuco, pois todo o seu acervo está sendo transferido para João Pessoa, onde vem sendo acomodado no amplo Centro Cultural José Lins do Rego. E sendo, portanto, valorizado como não o foi em Pernambuco.

Escultura esquecida nos jardins da Casa Cor (LL)

De acordo com o que a família do artista informou ao #OxeRecife, o acervo foi oferecido como doação às autoridades da nossa cidade e do nosso estado, para que permanecesse na nossa terra, como era o desejo do escultor. Mas como o interesse não chegou, está tudo sendo transferido para a Paraíba. A herança deixada por ele na nossa cidade, no entanto, não cessa de mobilizar os recifenses em suas caminhadas.

Tanto que neste domingo aconteceu a terceira caminhada de 2019, com roteiro traçado tomando como base as esculturas que Abelardo deixou no Recife. Aliás, não só as esculturas, como também os seus painéis. Sejam nas ruas, em parques, condomínios, agências bancárias, universidades. Em janeiro, em um sábado tão chuvoso como esse domingo (31), o Grupo MeninXs na Rua fez uma incursão pela obra de Abelardo, com saída no Parque da Jaqueira e finalização no Bairro de São José.  Foi uma “viagem”, organizada por Agenor Tenório, que incluiu visita à residência, ao ateliê e ao galpão onde repousam as obras do artista. A família nos recebeu com muita gentileza, mostrou gravuras, estudos, esculturas e nos detalhou a dificuldade que encontrou para que o acervo ficasse em Pernambuco. Não teve jeito. E ela foi para a Paraíba, que mostrou mais sensibilidade com a cultura do que o nosso estado com o filho da terra. Em janeiro desse ano, o Projeto Olha! Recife (programa oficial da Prefeitura) já havia feito uma edição em homenagem ao artista, repetindo um roteiro já realizado em 2017.

Hoje foi o dia do Grupo Caminhadas Culturais incursionar pela herança deixada por Abelardo em nossa cidade. Saímos da Praça do Entroncamento, com percurso finalizado no bairro de São José. Não concluí o roteiro, devido à chuva. Eram 60 pessoas no início da caminhada. Mas boa parte fugiu da água,  já que no final só eram 23. Mas foi mais um dia de valorização dos nossos artistas, de nossa cultura. O passeio foi organizado por Stemberg Lima, coordenador do Caminhadas Culturais, que serviu de guia, como sempre ocorre nos roteiros realizados pelo Grupo, marcado por frenéticas trocas de informações sobre a arquitetura e a história do Recife pelas redes sociais. O grupo passou, também, na Rua do Sossego, onde morou o artista. Percorrendo a sua obra pelas ruas do Recife, nós ficamos sem entender como é que o governo do nosso estado abre mão de acervo tão importante para Pernambuco. Porque Abelardo, além de artista, faz parte de nossa história.  Foi fundador do Movimento de Cultura Popular e, a partir de 1964, enfrentou a perseguição política imposta pela ditadura.

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Emanoel Correia (Cortesia/ Caminhadas Culturais) e Letícia Lins

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2 comentários

    1. Oi,, Vanessa, Há algum tempo publiquei aqui os contatos e grupos de whatsApp das caminhadas. Breve colocarei outra vez porque sempre perguntam.

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