Cais José Estelita começa a virar pó

Mas um pedaço da memória do Recife acaba de ser jogado no chão. Depois de muita polêmica, os velhos armazéns do Cais José Estelita estão, enfim, sendo derrubados, para a construção do Novo Recife, projeto imobiliário que já rendeu grande mobilização da sociedade e muita confusão, até envolvendo a polícia. Caso seja realmente concretizado, o Novo Recife muda por completo a paisagem arquitetônica do Bairro de São José, um dos mais tradicionais da cidade.

Desde o seu início, em 2008 – quando o terreno da antiga Rede Ferroviária Federal  foi arrematado (para a construção de treze prédios residenciais e comerciais) – o Projeto Novo Recife enfrenta ações na Justiça e é alvo de questionamentos de grupos organizados da sociedade, como o Direitos Urbanos, que se fortaleceu a partir da luta contra aquele projeto imobiliário, considerado  por muitos como elitista e inadequado para a região.

A polêmica aumentou a partir de 2012, quando a sociedade passou a exigir uma ocupação mais democrática daquele espaço, que em 2014 foi tomado por manifestantes que ali montaram acampamento. Houve até confronto com a PM e ações de reintegração de posse.  O Cais José Estelita virou notícia em todo o País e a mobilização passou a contar com apoio até de artistas de projeção nacional.  Hoje, muitos manifestantes daquela época relatam o exemplo das Torres Gêmeas, situadas ali perto, no Cais de Santa Rita. É que seu projeto original contemplava área ajardinada e aberta ao público o que, de fato, não ocorreu. Os jardins privatizados das torres são vigiados por segurança privada, o que já motivou até protestos de grupos de ciclistas do Recife.

A demolição dos armazéns do Cais José Estelita foi liberada pela Prefeitura. E a autorização foi entregue pessoalmente pelo Secretário de Mobilidade e Controle Urbano, João Braga. Em nota, a Prefeitura do Recife lembra que a situação de 2019 é diferente da de 2014, quando o alvará concedido para a demolição dos armazéns foi suspenso. Tudo para “rediscutir o projeto”. A PCR alega que houve “amplo debate com a sociedade” e que, com o novo projeto, “65 por cento da área” ficou para o uso público. Vamos ver, no entanto, se esse percentual será cumprido ou se o Novo Recife  repetirá o que ocorreu com “a área pública” das chamadas Torres Gêmeas.  Pelo projeto, ali serão construídos treze prédios de 37 andares, com dois apartamentos por andar. O Consórcio informou que a a ação está legalmente amparada  e que os armazéns com demolição autorizada são os que ficam nas proximidades do Cabanga. Nas redes sociais, a mobilização já começou, como mostra a foto acima e o vídeo com a demolição. Também são relacionadas as razões pelas quais a demolição não poderia começar a acontecer. “Ainda dá tempo de se mobilizar e mostrar que ainda temos força. A luta não acabou”, conclama uma das organizações sociais que são contra o Novo Recife, a Coque (R)existe.

Leia também:
Ministério Público e Tribunal Federal   divergem quanto ao Projeto Novo Recife

Atentado estético no Boulevard
 Urbanismo e patrimônio cultural em discussão no Recife 

Bonde virou peça de museu e trilhos somem do Recife sem memória
O Hotel do Parque sem Memória
São José: o Haiti não é aqui
Praça Dom Vital parece ninho de rato
Você está feliz com o Recife?
Passeio por 482 anos de história

Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: MPF (Arquivo #OxeRecife) e Redes Sociais

Compartilhe

Um comentário

Deixar uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.