Pernambuco sem acervo de dois Abelardos: o da Hora e o Rodrigues

Depois dos MeninXs na Rua, tem outro grupo  (Caminhadas Culturais) programando uma visita às esculturas deixadas por Abelardo da Hora (1924-2014), nas praças, parques e ruas do Recife. É uma forma de preservar a memória daquele que foi um dos maiores escultores de Pernambuco no século 20, e que deixou um grande acervo para a posteridade. E também uma biografia de engajamento em favor da democratização da cultura, através do Movimento de Cultura Popular, o  histórico MCP, por ele fundado no século passado e devido ao qual amargou perseguição política, depois da ditadura militar implantada a partir de 1964. Ou seja, o que Pernambuco tinha que fazer era valorizar, preservar e ter um museu para abrigar as obras de artista tão importante. Certo? Mas o que aconteceu foi o contrário. O acervo está de mudança. Na década de 1970, Pernambuco já havia perdido a Coleção de Arte Sacra Abelardo Rodrigues (1908-1971) para a Bahia.

O acervo de Abelardo da Hora já vem sendo transferido para João Pessoa, Capital da Paraíba.  Dezenas de peças foram enviadas e começam, pouco a pouco, a tomar os seus lugares, no estado vizinho.  No mês de janeiro, debaixo da maior chuva, o Grupo MeninXs na Rua fez uma incursão pelas obras de Abelardo, sob a coordenação de Agenor Tenório. Passamos por vários bairros, trilhando o roteiro de suas esculturas, em jardins, universidades, agências bancárias, praças, parques. Percorremos bairros como Graças, Boa Vista, Santo Antônio, São José, visitando esculturas e murais deixados pelo Mestre. Mas não foi só isso: a família fez questão de nos receber, inclusive abrindo as portas da residência, do ateliê do artista e mostrando, ainda, o terreno onde repousam algumas de suas obras e no qual o sonho do escultor era erguer o Instituto Abelardo da Hora. Projeto do prédio chegou a ser feito pelo arquiteto Carlos Augusto Lira, e ganhou até premiação, em São Paulo. Mas tudo não saiu do papel.

A casa onde Abelardo da Hora residiu e criava as suas peças está do mesmo jeito dos tempos em que ele viveu. Museu?

A transferência do acervo de obras de Abelardo da Hora foi exaustivamente noticiada em Pernambuco. Muitas pessoas julgaram inclusive que o Estado não teria dinheiro para a compra das peças. Pois saibam todos: a família não queria vender, mas doar o acervo, para que fosse abrigado no Instituto.  Mesmo com a doação, Pernambuco não mostrou interesse em ficar com as esculturas e muito menos arranjar meios de edificar o Instituto. O #OxeRecife tentou saber no Palácio das Princesas qual o motivo do desinteresse, mas a resposta nunca veio.  O Grupo Caminhadas Culturais está programando um outro circuito – o Abelardar – para visitar as obras do artista nas ruas do Recife. Será no dia 31 de março. Se a obra de Abelardo da Hora chama a atenção dos próprios recifenses, imaginem a atração que seria, então, um memorial a ele  dedicado para gente de fora ver.

Seria mais uma atração turística para o nosso Recife.  O acervo deixado pelo escultor não é o primeiro que  Pernambuco perde para outro estado. Na década de 1970, Pernambuco perdeu para a Bahia uma das mais importantes coleções de arte sacra do Brasil, cerca de 800 peças datadas do século 17 ao 20. Na época, enquanto nosso Estado relutava quanto à compra da coleção, a Bahia decidiu levá-la para Salvador. Fechou negócio com a família do colecionador. Na época, o Governador da Bahia era Antônio Carlos Magalhães, que veio pessoalmente ao Recife para realizar a transação. Só então o governo de Pernambuco decidiu agir, movendo uma ação judicial para que a coleção ficasse no Recife.  Mas aí já era tarde. A briga na justiça ganhou até um nome curioso:  “guerra santa”. A confusão teve início em 1973 e só em 1975 a coleção chegou à Bahia, onde é uma das principais atrações do Pelourinho, que ganhou, assim, o Museu Abelardo Rodrigues. Para o artista plástico Cildo Oliveira, pernambucano residente em São Paulo, o descuido de Pernambuco com seus bens culturais é contraditório.  “A questão do pertencimento histórico-geográfico e cultural é o maior paradoxo pernambucano”, afirma. E completa: “Somos nativistas mas, no geral, o coletivo passa longe, não incentiva a comunidade a assumir seu espaço”.

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Texto e foto: Letícia Lins / #OxeRecife

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