Mutirões espontâneos contra o lixo

Sabe quando um navio despeja uma mancha de óleo na praia? No final de semana, não havia petróleo derramado no mar. Mas a impressão que os banhistas tinham era que vários navios descarregaram, de uma só vez, toneladas de lixo em Boa Viagem.  O cartão postal do Recife está com a areia emporcalhada desde a última sexta-feira. E a imundície é tão grande que houve formação espontânea de mutirões, para recolher a sujeira. Eu, inclusive. Participei de um no sábado.

Primeiro, a areia estava coberta de sargaço, no trecho que fica entre o Tulip Palace e o Edifício Acaiaca. Mas embora provoque desconforto e tenha cheiro forte, a gente sabe que as algas vêm com as marés e retornam ao mar, indo parar em outro lugar. É o ciclo natural, ao sabor das correntes das marés. Agora, a avalanche de plásticos e lixo – embalagens de biscoito, colheres, copinhos, garrafas, sacolas boiando – estava desproporcional. Era coisa demais, que ninguém sabia de onde tinha vindo tanto. Embora Boa Viagem não seja um primor de limpeza, confesso que a quantidade de lixo me surpreendeu. Seria bom que Secretaria do Meio Ambiente e Emlurb – investigassem o que de fato aconteceu, porque nunca houve quantidade igual espalhada em tão pouco tempo.

Cheguei em Boa Viagem no sábado, pouco depois das sete horas, com a maré ainda baixa. À distância, só vi sargaço. Mas depois, era lixo que não acabava mais. Um gari da Emlurb, Severino (não perguntei o sobrenome) me informou que na sexta a situação era ainda pior. “Só entre esses dois quiosques, enchi de lixo dez sacos de cem litros”, comentou, apontando para duas barracas no calçadão, nas proximidades do Edifício Portugal. Entre um quiosque e outro, não sei a distância, mas contei cem passos. Ou seja, uma tonelada de lixo a cada 500 metros.  De qualquer forma, ajudei Severino a recolher o lixo, e pedi a ele desculpas em nome da nossa tão mal educada população. No mar, na areia, era todo mundo com um saco, recolhendo o que via. “Isso é uma vergonha para o Brasil”, dizia o ambulante Siwu Mota, que trabalha em uma barraca perto do Edifício Holiday. Em dez minutos, ele já havia enchido um saco e ia levar para a lixeira, no calçadão. “Vou carregar no ombro”, afirmava orgulhoso de sua ação cidadã.

Minha amiga Maria Luiza Soares – com quem costumo caminhar pela areia – também surpreendeu-se com a sujeira, avisando da invasão de lixo por e-mail e pelo WhatsApp. Limpa, limpa, a praia nunca está, porque há os ambulantes e os banhistas porcalhões. Mas em toda minha vida de Boa Viagem – que frequento desde criança – nunca eu tinha visto tanta sujeira concentrada. E olha que não teve nenhuma enchente, como a que atingiu a Zona da Mata em 2010, quando mobílias – sofás, cadeiras, geladeiras – foram parar na beira da praia. Dessa vez, não foi a correnteza que trouxe não. Foi alguém que despejou indevidamente, e em grande quantidade, em algum lugar. Essa é a impressão que os banhistas tinham. Por via das dúvidas, agora vou ter que aumentar meu kit praia. Além do filtro solar, do bronzeador, do chapéu, dos óculos escuros, do livro e de canga, vou ter que levar um para de luvas amarelas, para ajudar a manter a praia limpa. Entre sexta e domingo, os garis trabalharam. Mas era humanamente impossível que, sozinhos, dessem conta do recado.

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Texto e foto: Letícia Lins/ #OxeRecife

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Um comentário

  1. Desde a semana passada a orla de Boa Viagem não conta mais com as duplas de policiais que atuavam no calçadão. A rua Tomé Gibson vai voltar a ser ” o corredor do crime”.

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