A história do menino que processa os pais por o terem colocado no mundo

O que faz um bom filme? Um roteiro muito bem articulado, uma bela fotografia, produção impecável, atuações convincentes, boa trilha sonora, certo? Nem sempre. Para uma leiga no assunto como eu, mas que ama cinema, o melhor filme é aquele que mexe com a emoção e permanece por toda a vida na memória da gente. E eu diria seis, que jamais esquecerei: Cinema Paradiso (Itália), Filhos do Paraíso (Irã) e Uma Casa à Beira Mar (França), O Tempero da Terra (Grécia/Turquia), Zorba, o Grego (Grécia) e O Melhor Filme de Minha Vida (Brasil). Agora posso citar o sétimo, com chance ser sempre lembrado:  o imperdível Cafarnaum, em cartaz no Cinema do Museu, da Fundaj, em Casa Forte.

Neste começo de 2019, tivemos uma safra de bons filmes: A Esposa, A Favorita, Infiltrado na Klan, O Vice. Adoro filmes de época – com passeios pelos séculos 16, 17, 18, 19 – e por esse motivo fui assistir A Favorita. Gostei, confesso. Tudo perfeito, reconstituição do século 18, das tramas da corte, dos jogos sexuais, das traições. Assisti, mas quando terminou o filme, tudo já tinha sumido da minha cabeça. Ou seja, bonito de assistir, mas… acendeu a luz, acabou. Dois desses filmes recentes, no entanto, mexeram com minha emoção: um foi o Infiltrado na Klan por retratar com crueza  e cenas antológicas a questão do racismo nos Estados Unidos. E o outro, que mexeu mais ainda, foi Cafarnaum. Publicitária, atriz  e diretora, a cineasta libanesa Nadine Labaki se supera a cada filme. O primeiro dela que assisti, Caramelo, já me impressionou, por retratar  com leveza o conservadorismo da sociedade libanesa. O segundo, Para Onde Vamos, mostra um grupo de mulheres que não medem esforços e artimanhas para impedir que maridos e filhos partam para a guerra. E agora, com Cafarnaum, Nadine mergulha fundo não só nos problemas sociais do seu país mas sobretudo na alma das pessoas. Cafarnaum já vem colecionando premiações e concorre ao Oscar.

Publicitária, diretora e atriz, Nadine Labaki se supera a cada filme: em Cafarnaum, não há como não se emocionar

O filme conta a dramática história do garoto Zaim, que decide processar o pais porque lhe botaram no mundo.  Para chegar a esse ponto, já dá para o leitor imaginar o sofrimento que o casal impõe aos filhos. Deles, Zaim,  o mais velho, é o encarregado de cuidar dos irmãos e de trabalhar feito um jumento (para botar comida em casa), o que o impede de ir à escola.  O menino se encarrega de proteger a irmã de onze anos, obrigada a casar com um homem com idade de ser o seu pai. A garota termina morrendo por complicações em gravidez. Revoltado com o destino imposto à menina pelos pais, Zaim foge de casa e vai viver nas ruas, onde se defronta com um mundo ainda mais adverso do que o que enfrentava em casa.

Zaim trava conhecimento com crianças na mesma situação de rua, embora por motivos diferentes: fugindo da Síria ou da Etiópia, por exemplo. Maltratado pelos pais e vivendo um caos de vida, Zaim cativa a plateia pela ternura que guarda no coração, pelo senso de justiça e pela frustração por ter que enfrentar um caminho tão difícil sem conseguir se transformar naquilo que sonhava ser um dia. Não percam. Ao contrário dos filmes anteriores,  Nadine aparece pouco como atriz em Cafarnaum.  Mas  assim mesmo o suficiente para marcar presença como defensora do menino que decidiu processar os pais porque o colocaram nesse mundo, feito de tanta gente com coração de pedra. Ainda bem que a luta de Zaim não foi em vão. E, ao fim do filme, resta-nos o conforto de ver um sorriso que a gente julgava ser impossível um dia na vida tão atribulada do menino. E um sorriso em imagem congelada. Para o nosso alívio.

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Texto: Letícia Lins/ #OxeRecife
Foto: Divulgação

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