À espera de Zé Pereira no Recife

De origem sertaneja – sua família é de Floresta – o Secretário de Turismo de Pernambuco, Rodrigo Novaes, marcou um gol de placa, não só ao divulgar a história dos ancestrais dos bonecos gigantes do nosso carnaval, como também pela ideia de trazer Zé Pereira e Vitalina para desfilar pelas ruas do Recife, com direito a grande festa. Ou seja, para mostrar a tradição do Sertão ao homem do Litoral. Até porque Zé Pereira não é nenhum bebê. Está, sim, completando um século de existência, tendo “nascido” no município de Belém do São Francisco, localizado a 486 quilômetros do Recife.

Belém fica à margem do Velho Chico, que tem nas carrancas um dos seus símbolos mais conhecidos, mas que tem, também, a história dos ancestrais dos bonecos gigantes a nos mostrar. Não estive na festa realizada no último sábado naquela cidade. Mas deve ter sido lindo, o desfile do “casal” de barco, em meio a um cortejo de maracatus, orquestras de frevo e artistas circenses sobre pernas de pau. Tudo para prestigiar a despedida dos bonecos, que tomaram um barco para “viajar” ao Recife. Na verdade, a embarcação era mais simbólica, já que os gigantes vêm é por estrada rodoviária mesmo. Vamos, pois, aguardar no Recife a chegada dos históricos bonecos gigantes, batendo palmas para eles. Os bonecos, aliás, integrarão a campanha publicitária sobre o carnaval no Estado, cujo slogan é “Só Pernambuco É Assim”. Que bom. Porque só o carnaval de Pernambuco e assim mesmo: completo, democrático, o mais diversificado do Brasil.

Que cidade do Brasil tem boneco gigante de cem anos de idade, ainda dançando pelas ruas? Qual outra cidade, a não ser Olinda, onde outro boneco gigante, o Homem da Meia Noite, chega a ser visto como divindade por um montão de gente? Eu mesma já entrevistei uma mulher que reza e acende vela para ele. “Contrata” até promessa ao calunga. O carnaval – festa mais popular do Recife – mostrou, em Belém, a diversidade da cultura carnavalescas da festa no Estado. Além do frevo e do maracatu, apareceram os papangus (Bezerros), os caretas (Triunfo), os caboclos do Maracatu Rural (da Zona da Mata de Pernambuco). Quero estar no Recife, para assistir, no dia 27 de fevereiro, a festa de encontro de bonecos gigantes, no Marco Zero. Vou aplaudir de pé.  “O Governo do Estado preparou essa ação com o objetivo de mostrar a pluralidade do Carnaval pernambucano. Queremos mostrar aos visitantes e ao nosso povo a história dos bonecos gigantes, um dos principais ícones culturais”, diz Novaes. Muita gente desconhece que esta tradição, que hoje toma conta de Olinda e do Recife, nasceu no Sertão”,  complementa o Secretário.

O Boneco é de Belém do São Francisco. Que venha ao Recife, como autêntico sertanejo. É muito melhor assim. Até porque na nossa capital, temos uma Embaixada de Bonecos Gigantes de Olinda, mas que de Olinda só tem mesmo o nome e os tamanhos dos gigantes. Na verdade, são bonecos do Recife que não sei porque cargas d´água, confundem o povo dizendo que são de Olinda. Estou mais com Zé Pereira, que é sertanejo, e não nega a origem. Que Zé Pereira não seja confundido com bonecos de Olinda, mas que seja apresentado como o pai de todos eles. A história do boneco, como quase tudo em carnaval, não dissocia o profano do sagrado. Em 1919, um morador de Belém chamado de Gumercindo Pires, criou o personagem. Isso após ouvir as histórias do padre belga Norberto Phallampin que passou a morar na cidade e celebrar missas na região. O religioso contava que utilizava bonecos grandes para chamar a atenção dos fiéis e convencê-los a assistirem às missas. Pensando nisso, o Gumercindo resolveu “tirar” os bonecos do sagrado e levar para o profano, criando assim o personagem e levando-o ao Carnaval da cidade. O sucesso de Zé Pereira foi grande entre crianças e adultos. E permanece até hoje. E viva Zé Pereira e sua Vitalina. Estou à espera deles no Recife.

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Foto: Divulgação/ Secretaria de Turismo de Pernambuco

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