Temendo gavião, aposentada entrega papagaio de estimação à Cprh

Neste dia em que 62 papagaios verdadeiros são liberados em Pernambuco, não custa nada lembrar a comovente história de amor entre um animal dessa espécie e a aposentada Maria das Neves Viana, residente na cidade de Olinda. Ela tinha Fred há 25 anos. Mas na semana passada, depois de um rio de lágrimas, resolveu encaminhar o animal ao Centro de Triagem de Animais Silvestres (Cetas Tangara), na esperança que o psitacídeo saiba se reintegrar à natureza selvagem, lá pelos sertões de Pernambuco.

“O coração ficou bem apertadinho, mas sei que foi o melhor para ele”, disse, emocionada, a aposentada. Antes, no entanto, fez questão de se deslocar com a família e Fred até a localidade de Aldeia, onde fica a sede do Cetas. Lá, observou as condições em que os animais são tratados, para se certificar de que aquela era a decisão correta. O papagaio verdadeiro (Amazona aestiva) é uma das aves mais visadas pelo tráfico de animais silvestres. E está em extinção. Como se sabe, manter animal em cativeiro é crime ambiental. E no caso do papagaio verdadeiro, a multa pode atingir R$ 5 mil por ser animal ameaçado. Mas Fred chegou à casa de Neves bem antes da lei entrar em vigência.

Temendo que seu papagaio Fred virasse presa de um gavião, aposentada Maria das Neves entrega animal à Cprh, depois de rio de lágrimas.

Mesmo assim, a posse do animal em ambiente doméstico é considerada infração. Apesar de viver em ambiente doméstico, Fred até parecia feliz. Estava habituado com a dona, com quem conversava muito. E só ficava solto. Trelava onde queria dentro de casa e andava despreocupado no no quintal. Mas eis que de repente, uma ave de rapina, o gavião, passou a rondar o terreno, de olho no papagaio da aposentada. Como ela não queria deixar o bichinho preso (para que não sofresse em ambiente fechado) também não aguentaria vê-lo transformado em petisco do seu predador. Chorou, conversou com o papagaio – “Você vai ser mais feliz” –  e se convenceu de que o melhor era encaminhar o bichinho ao Cetas. O órgão, da Agência Estadual de Meio Ambiente (Cprh), acolhe, reabilita e reintroduz animais silvestres à natureza.  E desenvolve, também, o Projeto Papagaio da Caatinga, que é referência no Brasil. E pelo qual Fred, um dia, voltará à vida selvagem. Até o momento, 352 papagaios já foram reintroduzidos à natureza. Alguns inclusive já deram cria. Eles são provenientes de apreensões (tráfico) ou de entregas voluntárias (como a de Neves).

No Recife, houve um caso dramático relativo a um papagaio. Foi em 2013, quando a vendedora Gedália Valentim Ferreira teve “Meu Lourinho” levado pelo Ibama, a quem cabia, na época, cuidar de animais silvestres apreendidos. Gedália caiu em depressão. Com saudade do papagaio, a quem tinha “como um filho”, recorreu à Justiça, para tê-lo de volta. O animal foi liberado para retornar ao ambiente doméstico, mas ao chegar no Ibama com o mandado judicial, Gedália recebeu uma notícia triste: o seu bichinho de estimação tinha morrido 36 dias antes. Teve saudade da dona, caiu em depressão como ela, e terminou apanhando uma infecção. Pior, viveu  dias de inferno no órgão que deveria cuidar da natureza,  pois foi aprisionado em uma jaula com 470 aves, mas que comportava apenas 270.  Para evitar que Fred passasse pelo mesmo suplício, Neves fez questão de conhecer de perto o Cetas, onde os papagaios têm tratamento bem diferenciado daqueles que, no passado, lhes era dispensado pelo Ibama. E cuja cela, tão promíscua quanto as das prisões e presídios pernambucanos, levou à morte o “Meu Lourinho” de Gedália. Apesar da afeição que as pessoas criam por esse tipo de animal, tão carismático, é bom lembrar: não tem lugar melhor para o papagaio do que a natureza.  E que Fred seja bem feliz.

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Paulo André Viana/ Cortesia 

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