MeninXs na Rua com Abelardo da Hora

Pensem em uma turma animada. Apesar da chuva intensa, mais de 20 pessoas do Grupo MeninXs na Rua decidiram enfrentar as calçadas molhadas e botar o pé no asfalto no último sábado. Afinal, o roteiro era nobre: “passear” pela arte de Abelardo da Hora (1924-2014), visitando doze de suas mais conhecidas esculturas, espalhadas por agências bancárias, praças, parques e até edifícios no Recite. O percurso foi traçado por Agenor Tenório, idealizador da caminhada temática e responsável pelo seu planejamento. O total a ser percorrido: sete quilômetros, passando por vários bairros, como Graças, Parque Amorim, Boa Vista, Santo Antônio, São José.

Para os que não lembram: Abelardo da Hora é um dos mais importantes artistas de Pernambuco e também um dos mais versáteis. Com uma diferença de muitos outros, que tentam – sem muito sucesso – expressões variadas no campo das artes plásticas: ele era bom em tudo que fazia. Estudou Direito, mas nunca exerceu a profissão. Era desenhista, gravador, ceramista, escultor, professor. Na década de 1960, fundou o Movimento de Cultura Popular, o célebre MCP, que preconizava alfabetização de adultos, educação de base e democratização da cultura. O MCP foi totalmente desmantelado a partir de 1964, com a vigência da ditadura militar. E rendeu perseguição política ao artista, já que o MCP não passava de subversão para os poderosos milicos de então.

Abelardo ficou notável, também, por imprimir  preocupação social à sua arte.  Um exemplo é o antológico álbum Meninos do Recife, de 1962, cujas gravuras ilustrariam posteriormente o livro Geografia da Fome, de Josué de Castro, outro pernambucano famoso que foi perseguido pelo regime militar, chegando a amargar o exílio, onde morreu. No trabalho de Abelardo da Hora, a preocupação com a realidade de um Recife faminto e miserável aparece em muitas de suas  esculturas, entre elas as expressivas (aliás, expressionistas) Menino de Mocambo e A Fome e o Brado. Fiel à cultura popular, reproduziu, em suas esculturas, manifestações carnavalescas bem pernambucanas, como o  frevo e o maracatu. Também rendeu homenagem aos violeiros.

Esculturas com esses temas podem ser vistas em bairros como Boa Vista ( frevo na Rua da Aurora, e cantadores no Parque Treze de Maio ) e São José (maracatu, Praça Vidal de Negreiros, perto do Forte das Cinco Pontas). Também são famosas suas mulheres, em diversas posições, normalmente marcadas por elegante sensualidade. São observadas em parques, jardins, até em condomínios. Além de visitarmos as esculturas que ornamentam vários pontos do Recife, o roteiro nos revelou uma surpresa, inédita para todo o grupo:  visita à residência, ao ateliê e ao local onde Abelardo sonhava erguer o seu Instituto Abelardo da Hora, no qual pretendia reunir sua obra, expondo-a à visitação pública. Mas, esse é um outro capítulo, ao qual retornarei, aqui, no #OxeRecife.   Entre as obras visitadas em áreas públicas, no último sábado, estão: O Pescador, os Cantadores, Vendedor de Caldo de Cana, Monumento ao Frevo, Monumento a Zumbi dos Palmares, Monumento à Restauração Pernambucana..

Veja, na galeria abaixo, algumas esculturas de Abelardo da Hora:

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Texto: Letícia Lins/ #OxeRecife
Fotos: Socorro Araújo e Letícia Lins

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