Ecoponto: “tudo junto e misturado”

Já está em tempo de a Prefeitura entrar em entendimento com as casas de festas do Recife, para que organizem melhor os descartes de seus eventos. Na Avenida Dezessete de Agosto, por exemplo, onde há uns dez estabelecimentos do gênero, a desordem é geral. Ali, é comum observar-se o acúmulo de pacotes imensos de vasilhames de vidro, caixas de papelão e garrafas Pet, tudo misturado. Como tem muita gente precisando desse tipo de material para sobreviver, imaginem a bagunça que fica nas calçadas, com catadores remexendo o lixo, para retirada de produtos recicláveis. Um trabalho consciente renderia maior lucro, assim como convivência mais saudável dos catadores com o lixo. E também traria bem ao meio ambiente e, principalmente à população, que se defronta com calçadas obstruídas, precisando, muitas vezes, recorrer ao asfalto. A iniciativa sugerida pelo #OxeRecife, se aplicaria, ainda,  a supermercados, restaurantes, indústrias e até condomínios. E também a armazéns de construção, pois são poucos os que separam seus resíduos (como faz, de forma exemplar, o Etapa Final, de Casa Amarela, Zona Norte do Recife).

Mas, em uma cidade  onde os chamados ecopontos (foto) não possuem, sequer, divisórias para a correta separação de lixo, é de se esperar que a bagunça continue. Infelizmente. Certa vez, fui depositar o material reciclável em um “ecoponto” desses, e ao procurar os compartimentos devidos, um popular me advertiu: “É assim mesmo, tudo junto e misturado”. Não acreditei. Mas era isso sim, para minha dolorosa surpresa. No Brasil, no entanto, nem sempre isso ocorre. Uma pesquisa realizada pelo Cempre (Compromisso Empresarial para Reciclagem) mostra que 22 por cento dos municípios brasileiros contam com programas estruturados de coleta seletiva. E o número vem aumentando: deu um salto de 16 por cento, entre 2016 e 2018 (a investigação é realizada a cada dois anos). De acordo com o Cempre, somam 1227 os municípios em cuja coleta há participação ativa de cooperativas de catadores. Neles, as prefeituras apoiam o trabalho da categoria com maquinários, galpões de triagem, ajuda de custo com água e energia elétrica, veículos, capacitações e até investimento em divulgação e educação ambiental.

Não pode ser chamado de “Ecoponto”, um depósito como esse, observado em um alto no Recife.

De acordo com a Cempre, no Brasil, cerca de 35 milhões de pessoas tem acesso a programas municipais de coleta seletiva. Já é alguma coisa.  Mas a maioria não fica no Nordeste. Do total de municípios brasileiros que realizam esse serviço, 87% estão situados nas regiões Sul e Sudeste. Ou seja: 45% no Sudeste, 42% no Sul, 8% no Nordeste, 4% no Centro-Oeste e apenas 1% no Norte do país.  O estudo também revelou que os programas de maior êxito são aqueles em que há uma combinação dos modelos de coleta seletiva. A maior parte daqueles municípios realiza a coleta de porta a porta (80%), outros por meio de pontos de coleta voluntária (45%) e por cooperativas (61%).

Os municípios que utilizam a coleta seletiva dos resíduos sólidos feita pela própria Prefeitura representam 39% do total e 36% contratam serviços de empresas particulares. Já com relação aos materiais recicláveis, em peso, as aparas de papel/papelão continuam sendo os tipos mais coletados por sistemas municipais de coleta seletiva (foi a busca por essas embalagens, aliás, que motivaram o Etapa Final a criar um sistema de separação e destinação correta dos seus resíduos).  Depois dos papelões, vêm os plásticos em geral, vidros, metais e embalagens longa vida. Nessa ordem. A Cempre não tem fins lucrativos, existe desde 1992, e conta com contribuição de mais de 30 grandes empresas. Entre elas, a Ambev, a Pepsico do Brasil, a Heineken Brasil, a Coca Cola. Já era tempo dessas corporações se mobilizarem mesmo. Grande parte do que se vê na natureza – latinhas, garrafas pet, depósitos de vidro – são produtos provenientes da indústria de bebidas e refrigerantes. Então, todas elas têm mais é que contribuir para a melhoria do meio ambiente, cujas agressões elas contribuem com seus produtos descartáveis. Por enquanto, uma coisa é certa: se polui muito mais do que se limpa.  Até porque os plásticos que elas injetam no mercado, entopem canais, rios e já ameaçam a fauna marinha. Então, educar é preciso. E reciclar, mais ainda.

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Texto e foto: Letícia Lins/ #OxeRecife

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