Menino veste azul e menina veste rosa?

O que diria Pierre Auguste Renoir (1841-1919) se ouvisse, hoje, a declaração da Ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves que, em pleno século 21, afirma em  meio a um coro de correligionários, que “menino veste azul e menina veste rosa”? Frase ridícula, meu Deus! Lembro que pari três filhos ainda no século passado. E em nenhum das gestações tive essa frescura. Independente de sexo, os enxovais dos três tiveram roupinhas de todas as cores: rosa, azul, amarelo, azul turquesa, vermelhinho, azul marinho, branco e por aí foi. Por acaso o hábito faz o monge?

Lembrei logo desse quadro, daquele gênio francês da pintura que, em 1881, ostentava duas meninas: uma de vestido rosa e outra de azul. Isso há 137 anos!  Discursos políticos à parte contra “ideologia de gênero”, tenho uma relação de amor com essas duas meninas. E com seu rosa e seu azul. Era criança, tinha uns nove anos, quando minha mãe pediu que fosse à Venda de Seu Abelardo (o supermercado do bairro, na época), comprar alguns alimentos. Naqueles tempos, não se usava sacolas plásticas e as mercadorias eram embaladas em folhas de revistas descartadas ou vendidas como papel usado.

Quadro pintado em 1881: meninas de azul e rosa

Quando cheguei em casa, que os pacotes foram desembrulhados, uma página inteira era uma fotografia desse quadro, o Rosa e o Azul. Era criança, mas fiquei deslumbrada com a pintura. Lembro que passei meia hora com o papel amassado na mão, contemplando os traços, as cores, as roupas das garotas. Tempos depois, colecionando fascículos de Gênios da Pintura, da Editora Abril, vim a saber que aquela era uma obra prima de um pintor até então desconhecido para mim, chamado Renoir. Passou o tempo. Seu Abelardo morreu, a venda mudou de dono, embora  tenha sobrevivido e funcione, ainda hoje, no mesmo lugar: a esquina da Rua Conselheiro Nabuco com Harmonia, em Casa Amarela, Zona Norte do Recife.

E eu, cresci, virei adolescente e viajei a São Paulo, onde morava meu pai. Tiro uma tarde para visitar o Museu de Arte de São Paulo, na Avenida Paulista, onde contemplo as obras de artistas brasileiros e estrangeiros. De repente, quando me viro para dar a volta, com quem me defronto? O Rosa e o Azul, atrás de mim, bem pertinho. Tive a sensação que as meninas me olhavam. Sinceramente, deu uma emoção forte, meu coração disparou e fiquei a olhar as garotas azul e rosa que tanto encanto me despertaram na infância. Confesso: foi uma felicidade maior do que contemplar, anos depois, a Mona Lisa no Louvre. Em 2018, ao passar no Museu, minha filha Joana Carolina me enviou foto das meninas. Porque sabe do meu caso de amor com o as duas cores, sem essa história ridícula de que menino veste azul e menina veste rosa.

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Foto: Joana Carolina Lins/ Cortesia

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