Nação Xambá, 88 anos de resistência

Hoje é uma data importante para a Nação Xambá, que terá a quinta-feira marcada por eventos em homenagem a Yansã (Oyá). Entre eles, o plantio de uma gameleira sagrada, em frente ao Terreiro de Xambá, no Quilombo do Portão do Gelo, em Olinda. Também será lançado o livro Povo Xambá Resiste – 80 anos de repressão aos terreiros em Pernambuco (da jornalista Marileide Alves, que é filha de santo da Casa Xambá). A história do Quilombo, no entanto, remonta a 88 anos de resistência, sendo que há 86,  era coroada sua primeira Yalorixá, Dona Maria Oyá.

No volume, com 178 páginas, Marileide relata a perseguição enfrentada pelos seguidores de religiões de matriz africana, principalmente durante a ditadura comandada por Getúlio Vargas, a partir do final da terceira década do século passado. Com base em pesquisa realizada em documentos e também em depoimentos, ela mostra a crueldade com que a perseguição era realizada. “Os policiais obrigavam as pessoas a dançar com animais – bodes, cabras utilizadas em rituais de obrigação – para ridicularizar sacerdotes e sacerdotisas”.

E o esforço para ridicularizar mães, pais e filhos de santo não parava aí: “As forças repressoras também os obrigavam a fazer trouxas com pertences dos terreiros, para quem  seguissem pelas ruas e a pé, o  carro da polícia  pelas ruas”. No livro, Marileide mostra como a violência institucionalizada e o cerceamento à liberdade atingiram o povo Xambá, cuja primeira Yalorixá, Dona Maria Oyá, foi coroada há 86 anos.  A autora relata como foi a resistência.  Revela, no entanto, que a discriminação ainda não acabou. Em pleno século 21.  “Como se não bastasse toda a repressão vivida pelo povo de santo, durante a ditadura do Estado Novo, nos tempos atuais os terreiros têm sofrido com a intolerância religiosa, oriundas de adeptos das igrejas evangélicas neopentecostais”.  No Recife, há exemplos recentes que mostram esse problema.

Para Marileide,  “essas atitudes afrontam o Artigo 5º da Carta Magna do Brasil e, consequentemente, o estado laico”. O livro foi editado pela Companhia Editora de Pernambuco (Cepe) e a tarde de autógrafos acontece a partir das 16h, à Rua São Severino Paraíso, 65, São Benedito, Olinda, onde fica o Terreiro. O volume custa R$ 30. Antes, logo após o plantio da gameleira sagrada, às 11h30, será hasteada a bandeira (foto) do Quilombo do Portão do Gelo – Nação Xambá, “que passará a ser um dos símbolos marcantes da Nação Xambá, do território sagrado quilombola e representará o povo Xambá em qualquer lugar do mundo”, segundo informam os povos do Terreiro.  Das  12h às 13h30m , haverá Toque de Louvação a Yansã. E às 19h, em frente ao Terreiro haverá o show Na Casa da Mãe, Concerto para Yansã, com os grupos Bongar e Estesia.

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Texto: Letícia Lins/ #OxeRecife

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