O “ato revolucionário” de caminhar e os “corredores penitenciários” do Recife

Arquiteto, urbanista, consultor (é sócio e fundador da TGI – Consultoria e Gestão), Francisco Cunha ( na foto, de camisa branca, sentado) participou da criação de movimentos importantes para a nossa Capital, como o Observatório do Recife (2008) e o Olhe pelo Recife, Cidades a pé (2010). Também criou, há dez anos, as célebres Caminhadas Domingueiras,  nas quais funciona como nosso guia, com a autoridade de quem conhece a história, os estilos arquitetônicos, os  problemas urbanos e tem até livro publicado sobre o Recife.

Em uma década, as Caminhadas Domingueiras já fizeram cerca de cem incursões pelo Recife e, também, por Olinda. Em 2018, elas somarão oito até o final do ano. A próxima acontece no domingo, 9 de dezembro e, como sempre, deve arrastar cerca de 150 pessoas. Recentemente, Francisco falou no Agenda 2019, evento realizado há duas décadas pela TGI, cujo tema foi As pessoas, a cidade e o futuro. E o Recife, como fica nessa história? Vamos ver o que ele diz sobre a cidade que conhece com a palma da mão, às custas de muita  sola  gasta nos sapatos. Na entrevista, ele mostra os “corredores penitenciário” em que estão se transformando as ruas do Recife, fala da “chacina” de pedestres e diz  como deve ser uma cidade boa de se caminhar.

#OxeRecife – Porque caminhar é um ato revolucionário?
Francisco Cunha – Caminhar é um ato revolucionário porque quando caminhamos na cidade, estamos sendo simultaneamente humanos e urbanos. Humanos porque foi o caminhar que levou a humanidade de uma remota localidade do Leste africano para todos os recantos do planeta Terra, com o apoio apenas de navegação a remo. Isso porque naquelas épocas remotas nem roda existia. Urbanos porque só no ritmo da caminhada (máximo de 5 km/h) conseguimos nos apropriar da cidade e do entorno real. De veículos motorizados (carros, ônibus, trem), viajamos encapsulados a velocidades (mais de 40 km/h) incompatíveis com a observação do entorno. Voltar à rua caminhando é revolucionário porque restaura essa relação essencial com o entorno.

#OxeRecife Nossa cidade, o Recife, é boa para caminhar?
Francisco Cunha –  O Recife, em especial na sua Zona Norte, é uma cidade originalmente construída, com o traçado de sua malha viária principal quando não existiam carros. Logo, a cidade original é uma cidade traçada para pedestres. As pessoas andavam pela rua junto com cavalos e carroças. Nem calçada existia… Ocorre que, com a chegada do automóvel há 100 anos, esse traçado precisou ser adaptado aos veículos motorizados, segregando os pedestres às laterais das vias, em calçadas precárias (principalmente a partir da década de 1970, época do auge do desvario rodoviarista). Hoje, os pedestres, apesar de legalmente protegidos pela legislação federal, estão na prática relegados a último plano praticamente no país inteiro. O Recife, infelizmente, não foge a esta regra, apesar de alguns avanços tímidos porque é preciso reconhecer que já foi pior…

#OxeRecife – Em conferência  recente, no evento Agenda 2019, você mostrou cidades onde a  falta de árvores provoca grandes aumentos de temperatura. Qual a situação do Recife, cuja arborização sofre golpes diários?
Francisco Cunha –  As diferenças de temperatura medidas no Recife entre áreas sombreadas e áreas ensolaradas passam de 5 graus, podendo chegar até a 10 graus, segundo a secretaria de Meio Ambiente. Numa cidade tropical, quase equatorial, sem sombra não é possível caminhar de dia. Daí, a importância capital da arborização na nossa cidade.

#OxeRecife – O trânsito provoca no Brasil, o que você chama de chacina de pedestre. E no Recife, como evitar essa situação?
Francisco Cunha – Para evitar essa verdadeira chacina que é a quantidade de mortes de pedestres no Brasil, precisamos de calçadas seguras, faixas de pedestres respeitadas em todos os cruzamentos e, sobretudo, controle rígido das velocidades máximas permitidas. O Código de Trânsito é claríssimo em relação a isso. Na minha rua no Parnamirim, sinalizada como de 40 km/h de velocidade máxima permitida (embora na minha opinião devesse ser 30 km/h para obedecer o código), já medi mais de 60% dos carros, ônibus e motos, passando acima da velocidade assinalada como permitida num domingo à tarde. Nos dias de semana, esse percentual é visivelmente maior. Comentei na CBN, postei uma foto nas redes sociais com o polegar para baixo junto da placa. Na semana seguinte, arrancaram a placa…

#OxeRecife – Há cidades, como Salvador, onde os muros dos condomínios  normalmente são vazados (em ferro) ou transparentes (em vidro). No Recife, é cada dia maior a quantidade de “fortalezas” com muros altíssimos, de pedra até, que mais parecem prisões. É isso que você chama de “corredores de penitenciária”? Quais as consequências para o Recife?
Francisco Cunha – Os corredores de penitenciária atrapalham a vida do pedestre porque “matam” o trecho da rua onde estão erguidos. Sem a indispensável transparência (cruzamento de olhares) entre os espaços público e privado, a insegurança aumenta muito. Além do que a calçada na frente tende a ficar abandonada, esburacada, cheia de lixo. Jane Jacobs, na década de 1960 – em Nova York -descobriu essa coisa fantástica: a segurança de uma via pública (calçada incluída) é diretamente proporcional à quantidade de olhos sobre ela. Corredores de penitenciária impedem o cruzamento de olhares e embrutecem o espaço público.

#OxeRecife – Quais os requisitos que uma cidade deve oferecer para o pedestre?
Francisco Cunha – Primeiro requisito: calçadas em bom estado físico (sem buracos, rampas, ferros). Segundo: calçadas desimpedidas (sem coisas no caminho do pedestre, em especial carros estacionados em cima). Terceiro: calçadas sombreadas. Quarto: faixas de pedestres respeitadas. Quinto: velocidades máximas rigidamente controladas. Sexto: educação dos motoristas e punição severa para os infratores que ameaçam a vida dos pedestres.

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Foto: Paulo Lyra/ Caminhadas Domingueiras/ Cortesia

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