Ojás contra racismo religioso

Quem chegar por esses dias a Salvador, pode se deparar com uma cena aparentemente inusitada: árvores centenárias, amarradas com faixas brancas. O que pode parecer esquisito para o forasteiro é, na verdade, uma manifestação conhecida na Bahia, terra marcada pela presença ancestral dos orixás e do candomblé. Melhor falando. É que nesse mês de novembro está em curso a Alvorada dos Ojás, tradição de doze anos, através da qual os terreiros pedem paz, tolerância, respeito à liberdade religiosa e o fim do ataque ao candomblé e outras religiões de matriz africana.

Estive no Terreiro do Gantois, juntamente com amigos, para assistir ao início do ritual, totalmente ecumênico, em 2018. Em meio às baianas de um dos mais famosos terreiros da Bahia – que foi liderado pela lendária Mãe Menininha do Gantois – havia presença de padres, líderes espíritas, do Hare Krishna e até de igrejas evangélicas. Para o Coletivo de Entidades Negras (CEN) – organizador do evento – a mobilização precisou ser ampliada este ano. “Em 2018, defender a liberdade religiosa ganhou um sentido mais relevante, considerando o movimento social e político vivido pelo nosso país, notadamente pela conflagração do processo eleitoral, que acabou com a escolha do novo presidente da República”.

Para o CEN, “o discurso violento do militar eleito contra as minorias e a diversidade, certamente vai na direção oposta do que  a Alvorada dos Ojás buscou defender nesses doze anos”. E acrescenta: “A paz, a solidariedade e a harmonia pregada em mais de uma década de nossa ação, não combina com a perseguição anunciada pelo novo governo do Brasil aos grupos vulneráveis, mulheres, quilombolas, indígenas entre outros”. Eles denunciam “o processo de militarização em curso”,  afirmam que não vão admitir cerceamento de cultos nem que sua liberdade seja violada. Durante a cerimônia, houve homenagem a Moa do Katendê, que foi assassinado em uma discussão por motivos políticos, durante a campanha presidencial.

A cerimônia contou com participação de capoeiristas, coral ecumênico e familiares de Moa, e foi comandada por representantes dos terreiros de candomblé. O ojá é o traje (faixa) que cobre o ori (cabeça). Ojuobá  da Casa de Oxumaré, o historiador Marcos Rezende conta porque as árvores também ganharam ojás. “A árvore é um elemento da natureza. Sem elas, não existiria vida”. E acrescenta: “E é sobre a garantia da vida dos fiéis que queremos tratar, é sobre o direito constitucional que as pessoas têm, de cultuar a sua religião, a sua fé, ou até, de não possuir religião alguma”. E conclui: “Sabemos que o racismo religioso nos atinge, porque essas religiões são oriundas da África”. Logo após a cerimônia no terreiro, os seguidores de rituais religiosos de origem afro foram às ruas de Salvador, onde tecidos brancos, já sacralizados, os ojás, foram colocados nas árvores, para transmitir o apelo de paz.

Veja galeria de fotos do ritual da Alvorada dos Ojás:

 

Agora veja vídeo da cerimônia Alvorada dos Ojás:

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos e vídeo: Fernando Batista/ Cortesia

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