O estrago do bambu na Mata Atlântica

Frequento o Zoológico do Recife (hoje integrado ao Parque Estadual Dois Irmãos) desde meus tempos de criança. Lembro até do incidente que aconteceu com uns amigos da rua em que morava, em Casa Amarela. Eles resolveram gazear aula para passear no Horto. Lá pegaram um barquinho, que afundou. Aí nadaram até a ilha onde ficavam os macacos e, chegando, foram devidamente repudiados pelos animais. Alguns dos gazeteiros  até sofreram mordidas e não tiveram como esconder a travessura dos pais. Hoje já não há mais barcos nem pedalinhos nos espelhos d´água do Zoo. O fato é que até 2017, nunca tinha feito uma trilha pelas suas matas. Mas quebrei o jejum no ano passado, indo ao Açude do Prata, durante uma incursão com o Grupo Caminhadas Domingueiras.

No  último domingo, fiz uma outra durante etapa final de caminhada com o Grupo MeninXs na Rua, cujo tema era O Verde do Recife. E claro, com um tema tão voltado para a natureza – devidamente idealizado, planejado e coordenado por Agenor Tenório – o final do roteiro tinha mesmo era que ser em um dos fragmentos da Mata Atlântica. Para os que não sabem, o Parque Estadual de Dois Irmãos possui nada menos de 1.158 hectares, dos quais 14 hectares pertencem ao zoológico. A ampliação  do Pedi ( antes eram 384 hectares) virou realidade a partir de 2017, quando o Governador Paulo Câmara (PSB) assinou a desapropriação da Fazenda Brejo dos Macacos, antes pertencente à massa falida do Banco Econômico. A operação, no entanto, foi iniciada ainda no governo Eduardo Campos (já falecido).

Como o bambu, a zebrina é exótica e começa a se espalhar, prejudicando fragmento de Mata Atlântica no Pedi.

A negociação custou quase R$ 37 milhões, provenientes de  créditos de compensação ambiental (sim, eles servem para isso e, finalmente, o Estado aprendeu a usá-los). O Parque hoje se integra à Área de Proteção Ambiental (Aldeia Beberibe), que abrange  oito municípios e funciona como um pulmão da Região Metropolitana. Na trilha, tivemos como guia  Júlio, estudante de biologia. Muito cuidadoso, o rapaz nos aconselhou logo a falar baixo para não perturbar a paz dos bichos da floresta, assim como a não arrastar os pés para evitar sacrifício de animais que vivem sob o solo. Apesar do registro da ocorrência de saguis, quatis, capivaras e aves, não nos defrontamos com nenhum mamífero. Encontramos apenas uma cobra cipó e uma minúscula rã, cuja espécie eu jamais tinha visto.

No entanto, me chamou a atenção o tamanho das “panelas” de formigas, com extensão significativa e montanhas com altura superior a um metro e sessenta (a minha). Na mata, tudo se integra: morcegos, formigas e cupins, inclusive, que são considerados pragas em áreas urbanas. A curiosidade maior, no entanto, foi quanto a duas espécies exóticas que colocam em risco a convivência harmoniosa das outras espécies vegetais: o bambu e a zebrina. Ao contrário da China onde o bambu tem predadores, na Mata Atlântica ele cresce sem controle e suas folhas quando secas, espalham uma toxina no solo que impede o crescimento de outras espécies. Ou seja, uma peste, apesar da beleza e da imponência. O outro problema que observamos foi a zebrina, uma planta rasteira, muito vista nos jardins do Recife e que eu não sabia que a procedência era do México. A Zebrina está fazendo um estrago, porque se alastra pelo solo, atrapalhando, também o crescimento de outras espécies. O problema do bambu é tão grande, que a erradicação dos maiores já vem sendo discutida pelos gestores do Pedi. Realmente a gente observou: onde fica a palha de suas folhas, nada nasce na mata,

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Letícia Lins e Luzivânia Melo (MeninXs na Rua)

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