Mercado da Boa Vista: agora vai?

Já era tempo mesmo de a Prefeitura anunciar (anunciar não, providenciar) alguma benfeitoria para o Mercado da Boa Vista, um dos mais movimentados, tradicionais e boêmios do Recife. Estive lá recentemente e fiquei impressionada com o abandono: calçadas e pisos detonados, esgotos estourados, banheiros quebrados, lixo acumulado. E tomara que as obras prometidas nesta semana não se transformem em peças de ficção, como ocorreu com o  Mercado de São José e o da Madalena.

No primeiro caso, pouco antes da Copa do Mundo de 2014, foi divulgado que vários intervenções seriam feitas no Mercado de São José, para que ficasse em condições de fazer bonito para turistas que vieram ao Recife, acompanhar naquele ano o evento mundial de futebol. Pois nem os vidros quebrados foram trocados, nem disciplinado o comércio ambulante em seu entorno, que ocupa asfalto e calçadas. Até hoje está tudo detonado, do mesmo jeito. No caso do Mercado da Madalena, pouca coisa mudou, apesar do custo altíssimo da obra. Foi refeita a calçada externa, alguns reparos nos banheiros e nada mais que se observe na parte interna e externa.

Nem mesmo a Praça (Solange Pinto) onde ele fica recebeu nem vai receber reforma. Agora, pasmem: o valor das obras na Madalena chega a R$ 1.045.240, segundo a placa oficial lá colocada. E os recursos foram conseguidos não pela Prefeitura, mas pela Secretaria de Turismo de Pernambuco. Vou ao Mercado semanalmente, e os todos os comerciantes com quem conversei se queixam da “reforma”, que deve ser concluída em 6 de novembro. E eles têm razão, porque a reforma tem aspas mesmo. Por dentro, está tudo do mesmo jeito. Nada mudou. E por fora, melhora, mesmo, só na calçada. Os frequentadores questionam o custo e o resultado.

Mercado da Madalena ganhou “reforma” discutível e Praça Solange Pinto, onde ele fica, continua detonada.

Agora, a “boneca” da vez é o Mercado da Boa Vista, que está entregue às baratas. Até esgoto jorrando ali junto se vê,como acontece na Travessa Pedro Albuquerque, que passa atrás do Mercado, que bem que poderia ganhar um “banho de loja” no entorno. Ficaria tudo mais bonito. No Mercado da Madalena,  a praça não ganham direito a requalificação. Mas bem que poderia. A Prefeitura informa que o da Boa Vista ganhará revisão nos telhados e nas instalações elétricas e hidráulicas, além de recuperação do piso, rampas de acessibilidade e outras iniciativas.

Movimentadíssimo aos sábados e domingos – e muito querido pela população do Recife, que tem nele um ponto de convivência – o Mercado da Boa Vista também é grande foco de animação no carnaval, movimentado o bairro e o Pátio de Santa Cruz, ali perto. A promessa é que na festa de Momo, a reforma já tenha sido concluída. Vamos aguardar para ver. Embora não tenha a imponência do de São José, o Mercado da Boa Vista, como o primeiro, foi erguido no século 19. “A construção preserva suas características originais, e nele pode-se ver-se ver as pilastras do portal com seu conjunto de arcos”, lembra o Guia Turístico Um dia no Recife, de Francisco Cunha e Plinio Santos Filho.

Eu adoro mercado público em qualquer lugar do mundo. Para mim, eles funcionam como a radiografia dos moradores da cidade. E pulsam ou adormecem com ela. Lá estão: a gastronomia popular, os artefatos ainda hoje utilizados nos ambientes domésticos – rapa-coco, peneiras de palha, cestas, cerâmicas utilitárias – nossas frutas. Nossos queijos, as castanhas assadas (as brejeiras, as mais gostosas), o doce de leite artesanal, até bolo de rolo, por precinho bem mais em conta do que das lojas sofisticadas. Sabendo onde comprar, tão bom quanto. Mercado popular é feito a feira de Caruaru, tem tudo que a gente quer. Até conserto de relógio antigo.

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Texto e foto: Letícia Lins / #OxeRecife                                                               

  

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