Cine Glória: Art Nouveau e decadência

Tenho chamado a atenção, aqui no #OxeRecife, para bairro de São José, que encontra-se em petição de miséria. O Mercado de São José necessita de reparos não só no interior como na parte externa, onde as calçadas estão detonadas e o comércio desorganizado do entorno mal permite ao pedestre caminhar. A Praça Dom Vital – onde ele fica – como já disse antes, parece até um ninho de rato e virou uma vergonha para o Recife. Como passei recentemente por lá, me chamou a atenção o estado do gracioso Cine Glória.

Agora pergunto: se você fosse autoridade no Recife deixaria daquele jeito aquele que foi um patrimônio da população de um dos mais tradicionais bairros  do Recife?  Está certo que os cinemas de rua praticamente acabaram. No Centro, ficou o São Luís, uma das mais bonitas salas de projeção do país, mas que já esteve bem perto de virar um templo evangélico. Felizmente, a razão venceu e ele  está lá, lindo, cumprindo a função para a qual foi criado. Não é o que acontece, no entanto com o Cine Glória.

Interior do Cine Glória virou um amontoado de lojas desprovidas de charme, e que não se sustentam: muitas fechadas.

Praticamente esquecido pelos guias turísticos e pouco referenciado em livros sobre a paisagem e arquitetura do Recife, ele aparece discretamente no manual Um Dia no Recife (Francisco Cunha e Plínio Santos Filho), como  “um raríssimo exemplar da Art Nouveau no Recife”. Ora, se é raríssimo, era para ser preservado, não acham? Pois praticamente não se consegue, sequer, fotografá-lo, pois a sua fachada está encoberta por comércio ambulante e há, até, um quiosque, fixo, plantado na calçada do Cine Glória, o que impede a sua visibilidade. Do jeito como está, daqui a um tempinho ninguém vai nem mais lembrar que ele existe. Como ocorre com outros prédios da nossa cidade, como o belíssimo e descaracterizado Hotel do Parque (na Boa Vista), que hospedava os artistas nos tempos áureos do Teatro do Parque (há sete anos fechado para reforma que nunca termina).

O Cine Glória foi inaugurado na segunda década do século passado (4 de setembro de 1926), com a exibição do filme Flores, Mulheres e Perfumes. Serviu à população do então efervescente bairro de São José, e o seu público, em grande maioria, era formado por populares que frequentavam o Mercado, a Praça Dom Vital e o comércio de ruas como a Direita, a de Santa Rita, Duque de Caxias.Fiz  a foto que abre esse post em um domingo, quando acompanhava um roteiro das Caminhadas Domingueiras. Recentemente voltei ao local, em pleno burburinho do no meio de semana. Foi durante um percurso feito pelo Projeto Olha!Recife, sobre a arquitetura do ferro na nossa cidade. O Cine Glória nada tem a ver com esse tipo de edificação, mas ficava no meio do caminho. E aproveitei para entrar no prédio em estilo art nouveau. Acabou-se o encanto. Seu interior virou um amontoado de pequenas lojas,  sem nenhum charme.  Não há nenhuma que esteja à altura do prédio que guarda um precioso pedaço da história das salas de cinema do Recife. O Glória fica na Rua Direito, de frente para a Praça Dom Vital, área “turística” do Recife. Sim, está fechada a maioria das lojas que funcionam onde era a plateia do Cine Glória. É tombado pela Fundarpe. Imaginem se não fosse…

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Texto e fotos: Letícia Lins/ #OxeRecife

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