Parem de derrubar árvores (127)

“O que eu reprovaria na Alameda da Fidelidade é a maneira bárbara pela qual a autoridade faz cortar e podar, até o cerne, esses vigorosos plátanos”…. “Mas a vontade do senhor  Prefeito é despótica, e duas vezes por ano todas as árvores pertencentes à comuna são impiedosamente amputadas”. Se não fosse pelos plátanos – árvores com ocorrência na América do Norte, Ásia e Europa – aquela situação bem que poderia ser confundida com o arboricídio que ocorre no Recife, e contra o qual o #OxeRecife vem se posicionando, desde 2017.

Mas as frases são de Stendhal (1783-1842), em sua obra mais famosa, O Vermelho e o Negro, considerado um dos clássicos da Literatura Universal. Para vocês observarem que, já nos séculos 18 e 19, havia quem se preocupasse com a poda excessiva das árvores e seu consequente extermínio, como a gente vem observando em esquinas, ruas e jardins do Recife, em pleno século 21, quando a consciência ambiental da população é muito mais apurada. Parece que só não o é para certas autoridades.  Cadê o Ministério Público e os órgãos ambientais, que não dão jeito nisso? Há alguns dias, caminhando pelo bairro da Boa Vista, me defrontei com três restos mortais em apenas uma via. No caso, a Rua Clóvis da Silveira Barros. Encontrei três tocos, com podas radicais que terminaram, isso sim, matando as árvores, como vocês podem observar nas duas fotos abaixo (é só movimentar a setinha sob a foto).

Na verdade, eu tinha estacionado nesta rua, para documentar um outro toco, em frente ao Walmart, defronte da Igreja Batista da Capunga, fato relatado aqui na postaem Parem de derrubar árvores  (120), e que foi divulgada neste Blog no dia 25 de junho de 2018. Duas semanas depois após o registro, o toco foi erradicado no local. Ficou só o buraco, mas até o momento nada foi plantado no mesmo lugar. Já na Rua Clóvis da Silveira Barros, os tocos encontram-se à mostra, para quem quiser ver. E são gigantes. A mutilação foi tão grande que, acredito, algumas das árvores guilhotinadas não conseguirão sobreviver, fato cada dia mais corriqueiro em nossa cidade, o que é uma lástima. Aqui, só quem tem vez é a motosserra insana mesmo.

Em 2015, trabalhava em um jornal local, quando solicitei à Emlurb um levantamento das árvores “erradicadas” (termo utilizado em relatórios oficiais) no primeiro mandato da gestão oficial. Na época, elas somavam 5000. Deduzo que este número deve ter dobrado, a julgar pela quantidade de “tamboretes” que a gente vê nas ruas. Esses números, no entanto, viraram uma verdadeira caixa preta. Ninguém sabe, ninguém viu. Cobrei essa informação até mesmo em audiência pública para a qual fui convocada, na Câmara Municipal. Mas informação que é bom, nada… Então, o #OxeRecife tratou de registrar os tocos que são observados pelas ruas da nossa cidade. Aqui no Blog já são 127 postagens, com  208 árvores eliminadas de nossa paisagem. Está tudo documentado. Tem foto, endereço e data. E são tantas que, às vezes, me atrapalho até na numeração dos posts. Sinceramente, não sei onde isso vai parar…

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Texto e fotos:  Letícia Lins / #OxeRecife

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