As “matas” de cimento em Paulista

Dá tristeza ver uma área que era verde, coberta com cimento, sufocando as árvores. Foi o que observei em Paulista. Em 2017, estive na cidade a pedido de alguns moradores, revoltados com a situação das matas do município, localizado na Região Metropolitana do Recife e no qual a devastação de áreas verdes cresce de forma assustadora. Em 2018, fui de novo solicitada. E voltei lá há alguns dias, onde constatei que a situação realmente se agravou, para tristeza das pessoas que, como eu, amam a natureza. É muito, mas muito doloroso, observar o que era verde tomado por mantas de cimento.

O município consta com remanescentes de Mata Atlântica, distribuídos em matas como a do Janga, Jaguarana, Caetés. Algumas destas possuem áreas superiores a cem hectares, como  é o caso de Jaguarana (332 hectares), o que é motivo para comemorar. Isso porque, há algum tempo, um mapeamento realizado em 1839 fragmentos de Mata Atlântica em Pernambuco indicou que apenas sete por cento tinham mais de 100 hectares. E que 50 contavam com menos de 10 hectares. Ou seja, as matas de Paulista são importantes e temos, sim, o dever de preservá-las, antes que se acabem por conta do “desenvolvimento” e devido à especulação imobiliária. No entanto, Paulista é considerada pelos seus gestores como a “bola da vez” na economia do Estado, e espera-se que sua população aumente em 40 mil habitantes nos próximos dois anos. E tome construções, inclusive em locais que a população não julga conveniente.

Os condomínios possuem nomes bucólicos: Vila do Frio, Green Village, Bosque do Janga em Paulista. Mas… assim?

Mas de acordo com a Prefeitura, resta um bom espaço preservado no município. “As áreas verdes somam 60 por cento do nosso território”, garante Leslie Tavares, Secretário de Infraestrutura, Serviços Públicos e Meio Ambiente de Paulista. “Mas não há como deixar permitir a ocupação de áreas degradadas”, acrescenta. Garante, no entanto, que ela ocorre de forma sustentável,”com implantação de bairros arborizados, planejados e saneados”. Para quem chega na cidade, no entanto, as imagens são chocantes. Pelo que percebi, a Mata do Frio está ainda menor. A do Janga, ocupada com empreendimento imobiliário. A de Paratibe, também está com parte no chão, para construção de conjunto residencial. Há lugares onde a supressão das árvores deu origem a barreiras de cimento, em locais que eram verdes até o ano passado. Sinceramente, não gostei do que vi.

“Paulista está crescendo muito, e não podemos impedir que um empresário construa um condomínio se a área é dele, particular”, afirma Tavares. “Mas a cada árvore derrubada, a obrigação é que de três a cinco sejam plantadas, como compensação”, revela.  Mas reconhece: “Temos que correr para proteger o que resta, mas o que está degradado não há mais como reflorestar, porque não há dinheiro para replantar”.  Garante, no entanto, que os prédios em construção devem  garantir a sustentabilidade das chamadas  zonas especiais de conservação urbana e ambiental. Por onde andei,  os moradores reclamam do sumiço de fruteiras (tem quem relate que nem comprava frutas em feiras, devido à generosa oferta em matas como a do Frio), do aumento de esgotos e até da poluição de rios e do ar. Também relatam invasão de animais silvestres nas residências, por conta da destruição de matas.  “Tudo que é feito aqui está dentro da lei”, diz o Secretário. Resta saber se a legislação é suficiente para evitar que as matas da cidade se transformem em verdadeiros areais. Ou em “lindas” coberturas de cimento, como a que vocês vêm na foto.

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Texto e foto: Letícia Lins / #OxeRecife

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