Recife, saneamento, atraso e “tigreiros”

No Dia Nacional contra a MP do Saneamento – Medida Provisória 844/2018 que altera o Marco Legal do Saneamento Básico – não custa nada perguntar. Quem já se defrontou com cenas de esgoto a céu aberto no Recife? Aposto que todo mundo. Pois o problema pode ser visto em qualquer lugar, tanto em bairros populares quanto sofisticados. Não é para menos. No Recife, por descaso de nossas autoridades, não chega a 30 por cento o total da população atendida por saneamento básico. Pois, pasmem. No início do século passado, nossa cidade era quase 100 por cento saneada. Vejam só o tamanho do retrocesso, em pleno século 21. Dá  para aceitar esse absurdo?

Sobre o passado, foi o que fiquei sabendo, na última edição de nossas Caminhadas Domingueiras, no dia 29 de julho. Durante uma pausa que fizemos na Rua das Calçadas (foto), no bairro de São José, nosso cicerone-mor, Francisco Cunha, nos contou como o Recife já esteve na vanguarda, quando o assunto era saneamento, nos tempos dos nossos bisavós e avós. É que, em 1909,  foi convocado o engenheiro  sanitarista Francisco Saturnino Rodrigues de Brito (1864-1929), para comandar a implantação daquele serviço básico na cidade, sob a supervisão da então recém criada empresa Saneamento do Recife.  Brito é uma referência até hoje quando o assunto é urbanismo e saneamento, e não são poucos os estudos acadêmicos sobre o seu pioneirismo.  O autor da convocação foi o então governador era Herculano Bandeira (1850-1916), segundo revela a pesquisadora Tereza de Jesus Peixoto Faria, da Universidade Estadual Norte Fluminense Darcy Ribeiro.

“Para mim, Francisco Brito foi um herói do saneamento no Brasil”, afirma Francisco Cunha, lembrando que foi o engenheiro quem implantou a Estação de Tratamento do Cabanga, de onde o esgoto tratado seguida por um emissário até o Pina. Ainda hoje, a tubulação “histórica” pode ser vista naquela praia da Zona Sul. Antes da chegada de Saturnino, por volta de 1870,  havia sido criada a Recife Drainage Company, para coleta de esgoto. Ou seja, muito mais do que hoje, as autoridades daquela época se preocupavam com esse problema. Nem sempre, no entanto, foi assim. “Por volta de 1920, o Recife estava saneado. Mas antes disso, as pessoas jogavam os dejetos nas ruas, pela janela”, conta Francisco. Ele lembra que os moradores das ruas do centro – então também residenciais – avisavam, aos gritos que “água vem”, para avisar às pessoas que passavam nas calçadas. Assim, elas não levavam banho de urina ou cocô.

No Recife do século 16, 17 e 19,  os mais ricos utilizavam escravos para jogar os dejetos na maré. Os negros carregavam barris, que eram chamados de tigres. E os escravos que levavam a “carga” era conhecidos como tigreiros. Tigres, tigreiros e saneamento à parte, a situação do setor, pelo menos na nossa cidade, não é nada boa, em 2018. E você pode ver maiores informações nos links abaixo. Hoje, houve até reunião na Assembléia Legislativa, para discutir os efeitos  Medida Provisória Nº 844/2018, que altera o Marco Legal do Saneamento Básico no Brasil. A iniciativa foi do deputado  José Maurício (PP), Presidente da Comissão de Meio Ambiente da Assembleia Legislativa. Enquanto isso, no Recife, a gente continua a conviver com cenas que deveriam estar restrita aos tempos da Idade Média. Nesta semana, por exemplo, o pedestre precisava pisar no esgoto para chegar ao Plaza Shopping, em Casa Forte. Pode?

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Texto e foto: Letícia Lins / #OxeRecife

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